O Antigo Egito para Leigos

por José de Anchieta Toschi

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    A Obra de Jean-Pierre Houdin sobre a Grande Pirâmide de Khufu é Objeto de Novo Documentário

    Publicado por janchieta em 13/11/2009

    Por Shemsu Sesen

    jean-pierre-tabA Grande Pirâmide de Khufu tem confundido egiptólogos profissionais e pessoas comuns há milênios, mas o arquiteto Jean-Pierre Houdin propôs o que muitos sentem ser a mais provável e, certamente, a mais plausível de todas as teorias sobre a construção da Pirâmide de Khufu até o momento. Esta semana a emissora francesa de televisão France 5 exibiu um novo documentário sobre a obra de Jean-Pierre Houdin, chamado Khéops Révélé.

    O documentário está em Francês, mas há diversos trechos com Jean-Pierre e Bob Brier que estão em Inglês; e as animações em 3D, que são muitas, são simplesmente fantásticas. Uma boa parte de Khéops Révélé pode ser visto neste link para a France 5. Não estou certo se é o documentário na íntegra, mas, por muitas razões, vale a pena assisti-lo. Além de Khéops Révélé existem animações em 3D interativas, criadas pela Dassault Systèmes, com versões em Inglês. Os trechos em Francês do documentário são tão bem produzidos que você terá muito pouca dificuldade em acompanhar a história.

    int-ramp-tileComo o apoio à obra de Houdin continua a ganhar impulso, espera-se que a pressão ajude a criar a permissão que ele necessita para comprovar suas teorias. Assim, até agora o distante Conselho Supremo de Antiguidades do Egito tem resistido até mesmo a propostas minimamente invasivas de análise, como a termografia infravermelha. A postura do Secretário-Geral Zahi Hawass tem oscilado de uma colaboração com “mente aberta” à total rejeição. O aumento da atenção da mídia, o apoio da comunidade profissional e a crescente interesse o público certamente forçarão um “fim de jogo” ao que cada vez mais se parece com um caso de supressão de uma bem fundamentada teoria, mas de posição contrária a estabelecida.

    A próxima parte de “De Hemienu a Houdin”, a série exclusiva de Em Hotep! que explora em profundidade a obra de Jean-Pierre, está se aproximando da fase de rascunho. Na Parte 2 vamos examinar em detalhes a teoria da Rampa Interna e a solução de Jean-Pierre para o problema desconcertante da navegação daqueles blocos de 2,5 ton., sobre trenós, nas esquinas de ângulos retos. Aqui vai uma dica: Heródoto tomou parte nisso. Continue verificando em Em Hotep! o restante dessa história!

    shemsutag

    Copyright Keith Payne, 2009©.  Todos os direitos reservados.

    O desenho da Rampa Interna na Grande Pirâmide de Khufu é cortesia  da Dassault Systèmes.

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    De Hemienu a Houdin Parte 1: Como Você Prefere a Sua Rampa, Reta ou Com uma Virada?

    Publicado por janchieta em 31/10/2009

    Não faltam teorias para explicar como a Grande Pirâmide do Faraó Khufu teria sido construída, mas, até agora, todas elas falharam em vários aspectos. Desde rampas que são tão grandes e difíceis de construir quanto a própria pirâmide até rampas que, por sua natureza, só tornariam a construção da pirâmide ainda mais difícil, não sabemos nem sequer explicar como realmente os blocos foram colocados em seus lugares.

    Mas um arquiteto francês chamado Jean-Pierre Houdin pode estar mudando isso. Ele apresentou a primeira explicação detalhada, resistente aos testes de Física e ao bom senso, de como a Grande Pirâmide foi construída. Seu trabalho continua ganhando o apoio de arquitetos, engenheiros e egiptólogos proeminentes.

    Jean-Pierre concordou gentilmente em trabalhar com Em Hotep! para colocar sua teoria em termos que sejam acessíveis àqueles dentre nós que se não são arquitetos ou engenheiros, podem ser egiptólogos amadores ou profissionais de diferentes níveis. Na Parte 1 vamos dar uma boa olhada na evolução das teorias de rampa, como funcionam e como falham, e o que mais estava envolvido na construção da única remanescente das 7 Maravilhas do Mundo Antigo.


    Hemienu - o arquiteto e construtor da Grande Pirâmide

    Hemienu - o arquiteto e construtor da Grande Pirâmide de Khufu (Foto por Einsamer Schütze)

    Na introdução a De Hemienu a Houdin: Construindo uma Grande Pirâmide fomos apresentados aos personagens centrais da nossa história. Hemienu, que foi Vizir e Mestre de Obras do Faraó Khufu e que projetou, planejou e construiu a Grande Pirâmide. Henri Houdin, um engenheiro francês que ficou encantado com a Pirâmide de Khufu e assumiu a tarefa de aplicar engenharia reversa à sua construção. E o protagonista do nosso conto, Jean-Pierre Houdin, o filho arquiteto de Henri e herdeiro do grande tarefa de descobrir como Hemienu realizou um dos maiores feitos arquitetônicos e de engenharia da história da humanidade.

    Traçamos uma breve biografia desses três Mestres Construtores e analisamos como as épocas em que viveram, as circunstâncias históricas e até mesmo suas vidas familiares levaram-nos às suas respectivas missões. Também fomos apresentados a algumas das deficiências das muitas teorias que têm sido oferecidas por terceiros a respeito de como a Grande Pirâmide foi construída e tocamos nos conceitos que colocaram essa equipe pai e filho na trilha dos segredos de Hemienu.

    Também propus um desenvolvimento e um calendário de como queria abordar este projeto, isto é, que esta série de artigos seria publicada ao longo de várias semanas; que a Parte 1 trataria dos detalhes da rampa interna de Jean-Pierre e que na Parte 2 ele proporia como a arquitetura do interior da Pirâmide de Khufu foi planejada e realizada. Agora, passado mais de um mês, é óbvio que o calendário está descompassado e peço desculpas por isso.

    Mas, depois de muito trocar correspondência com o Sr. Houdin, decidi que este assunto merece mais do que apenas uma passada rápida. Existem inúmeras apresentações resumidas disponíveis on-line e impressas que podem dar a vocês noções básicas do trabalho de Jean-Pierre. Para um tratamento completo vocês realmente terão que ler o livro de Jean-Pierre e Bob Brier “O Segredo da Grande Pirâmide, que acaba de estar disponível em edição brochura (N.T.: Shemsu Sesen se refere ao lançamento da edição americana. O livro ainda não foi lançado no Brasil). Quanto a Em Hotep!, meu objetivo é fornecer notícias e artigos de referência sobre Egiptologia para “o Leigo Curioso e o Erudito em Floração”, o que significa ser abrangente e compreensível ao mesmo tempo.

    Assim, a Parte 1: Como Você Prefere a sua Rampa? será uma visão detalhada das principais teorias que precederam Jean-Pierre e que, exatamente por isso, simplesmente não funcionam. Isso irá estabelecer um bom alicerce para a Parte 2, que vai lidar com as inovações de Jean-Pierre sobre várias teorias de rampa e, como você verá em breve, alicerces são muito importantes para este tópico!

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    A entrada da Pirâmide de Khufu, com a Entrada dos Ladrões no canto inferior direito. As pessoas entrando pela Entrada dos Ladrões dão uma idéia do tamanho dos blocos envolvidos. Observe os grandes blocos e vigas da entrada principal, há blocos maiores mais para o fundo e mais para o alto (Foto de Keith Payne).

    A primeira seção deste artigo irá tratar das teorias de rampa reta, o que realmente serve como uma espécie de teste comparativo ao contrário contra o qual todas as outras teorias serão medidas. Isso pode soar um pouco ríspido, mas um entendimento do que essas teorias tentam realizar e porquê falham é vital para acompanhar sua evolução e como cada teoria nos leva para mais perto da resposta. A fim de ter 100% de certeza do entendimento correto desse aspecto muito importante da nossa discussão, a primeira seção toma a forma de um diálogo com Jean-Pierre.

    A seção seguinte lançará um olhar nas teorias das rampas espiraladas externas. Essas teorias sugerem que a Grande Pirâmide foi construída com o uso de uma rampa espiralada construída sobre a superfície externa da pirâmide. Elas resolvem alguns dos problemas que tornam as teorias de rampa reta impossíveis, mas deixam várias questões importantes por resolver e também criam seus próprios problemas.

    A terceira seção lançará um olhar mais atento sobre o momento do Eureka de Henri Houdin – Hemienu construiu a Grande Pirâmide de dentro para fora e ele conseguiu isso usando rampas internas. A epifania de Henri resolveu quase todos os problemas que subsistiam nas teorias anteriores, mas, como seu filho percebeu, alguns senões permaneceram.

    A Rampa reta externa: Um Diálogo com Jean-Pierre Houdin

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    O egiptólogo Ludwig Borchardt

    A teoria rampa reta foi desenvolvida por Ludwig Borchardt e completada por Jean-Philippe Lauer. A idéia básica era que uma rampa reta construída de tijolos e argamassa teria sido usada para transportar os blocos até seus lugares. Cada vez que um nível da pirâmide era concluído, o trabalho na pirâmide propriamente dita era suspenso até que a rampa pudesse construída até a altura do próximo nível. A base dessa rampa tinha que ser bastante larga, cerca de 50 metros, de modo que sua superfície em cima ainda fosse larga e estável o suficiente, à medida em que fosse sendo erguida. Tenha em mente que a pirâmide vai se estreitando conforme sobe, o mesmo devendo acontecer com a rampa.

    hthb03 - Straight_on_ramps1 PortugueseAo atingir o nível de 35 metros, nível em que se inicia a construção da Câmara do Rei, Lauer acreditava que a rampa de Borchardt e dele seria curta e pouco inclinada o suficiente para permitir que homens puxassem para cima grandes blocos, alguns deles pesando mais de 60 toneladas, até o local de construção da Câmara do Rei, onde máquinas usando sacos de areia como contrapeso e rampas menores cortadas no núcleo da alvenaria manobrariam os imensos blocos e vigas de pedra até seus lugares.

    Para o topo da pirâmide, a rampa de Lauer aumentaria em inclinação e sua largura seria reduzida. Ele acreditava que blocos pesando uma tonelada ainda poderiam ser movidos a uma altura de 112 metros numa inclinação 14 graus e que o último trecho poderia ser tão íngreme quanto 18 graus para assim poder chegar aos 146 metros finais. Lauer postulava que para compensar a grande inclinação, blocos menores seriam usados para completar a pirâmide.

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    O egiptólogo Jean-Philippe Lauer

    Dois problemas apresenta-se imediatamente com a rampa Borchardt-Lauer. Primeiro, ao contrário do que supunha Lauer, os blocos não diminuem progressivamente em direção ao topo da pirâmide. A espessura das camadas continua se mantendo esde a base até em cima e blocos pesando até 2,5 toneladas são utilizados até a altura de, pelo menos, 90 metros.

    Depois, há a questão do Piramidion. O Piramidion era a cornija da pirâmide, uma espécie de pequena pirâmide maciça que encimava a pirâmide. Construído de pedra calcária e recoberto com electrum, uma liga que continha ouro, o Piramidion pesaria, no mínimo, 5,5 toneladas, possivelmente chegando até 15 toneladas! Além disso, embora as camadas de pedra do topo estejam faltando hoje em dia, assim como o próprio Piramidion, elas teriam de ter sido particularmente grossas para suportar o Piramidion. Com o tempo, camadas de blocos menores seriam esmagadas. É simplesmente implausível que um Piramidion pesando de 5,5 a 15 toneladas, mais sua alvenaria de suporte, pudessem ter sido elevados a uma inclinação de 18 por cento.

    Jean-Pierre: Na verdade a força humana cai muito rapidamente acima de 10% de inclinação. Você deve manter uma relação ótima de força-inclinação. 7 a 8% de inclinação são os valores mais altos a considerar.

    Portanto, esqueça o aumento gradual de aclive. Para construir a pirâmide usando uma rampa reta, você tem que manter uma inclinação de 7-8%, desde baixo até em cima. Em “O Segredo da Grande Pirâmide”, Jean-Pierre Houdin e Bob Brier falam sobre uma rampa reta ter uma milha de comprimento. Mas, para a rampa para chegar ao topo da pirâmide, a cerca de 146 metros, mantendo uma inclinação de 7-8%, a rampa teria que ser ainda mais longa.

    Jean-Pierre: Discussões sobre uma rampa reta externa sempre falam em alcançar o ápice. Isso está errado. Nenhuma rampa pode ir acima do nível 130-135 metros – a rampa seria maior do que a pirâmide! Portanto, para atingir um nível de 130-135 metros a uma inclinação de 7%, uma rampa frontal tem que ter 1.860 metros de comprimento, cerca de 1,15 milhas. Para construir a mesma rampa com uma inclinação de 8%, seriam 1.625 metros de comprimento, cerca de uma milha, e é por isso que sempre falo de uma rampa com uma milha de comprimento.

    Isto significa que a fim de manter uma inclinação de gerenciáveis 8%, a rampa reta externa tem que ter cerca de uma milha de comprimento, e acaba ficando onze metros (cerca de 36 pés) mais baixa que o ápice estimado da pirâmide. Mas, onde Hemienu teria construído uma rampa dessas?

    O terreno tem muito a nos dizer sobre isso. A Grande Pirâmide foi construída sobre uma falésia e há um declive acentuado ao norte, por isso, nada de rampas por lá. Ao leste e a oeste existem cemitérios contemporâneos à pirâmide, por isso nada de rampas por lá, também. Isso nos deixa apenas o sul, que está longe de ser ideal para uma construção assim.

    Jean Pierre: Exatamente. Uma única rampa frontal teria que ser perpendicular à face sul da pirâmide, o que a coloca passando por sobre o canteiro de obras antes de encher o barranco no outro lado! A topografia fala por si.

    Assim, a rampa não só teria que passar além do canteiro de obras, teria que dar conta da elevação e da queda do terreno, o que significaria preencher o barranco, uma espécie de canal feito por um leito seco de rio, o que aumentaria ainda mais material e a mão-de-obra do projeto da rampa. Tenha em mente que quanto mais longe você tiver que construir a rampa descendente dando conta da queda criada pelo do barranco, mais larga a base tem que ser nessa seção.

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    A Rampa Reta, a Oitava Maravilha do Mundo Antigo? A questão não é só que ela teria sido um projeto tão grande quanto a própria pirâmide, mas saber que fim levou. (Cortesia de Jean-Pierre Houdin e da Dassault Systèmes).

    Em qualquer lugar que você olhar na Grande Pirâmide você verá sinais não apenas do gênio arquitetônico de Hemienu, mas da economia de seus métodos. Nada foi desperdiçado em termos de tempo ou de materiais. Uma rampa que exigisse dos trabalhadores arrastarem blocos na direção oposta à da pirâmide antes de poder subir por ela, simplesmente não parece fazer sentido.

    O volume de material e o número de homens-hora necessários para fazer uma rampa assim, levanta suas próprias questões. A construção de uma rampa com uma milha de comprimento que atingisse 135 metros em sua parte alta, exigiria uma quantidade enorme de material e de mão-de-obra, mesmo que fosse construída sobre uma superfície plana, coisa que não ocorreu. E onde é que todos os milhões de toneladas de pedra dessa rampa  foram parar?

    Quando você leva em consideração o terreno, você está falando sobre um projeto de envergadura semelhante ao da própria pirâmide, e isso apenas para a construção da rampa. Mesmo contando com a aragamassa, uma parcela significativa dessa rampa teria que ser de alvenaria sólida. Lembre-se, alguns dos blocos que ela teria que suportar pesariam mais do que sessenta toneladas. Pense nisso. Se a rampa fosse, digamos, dois terços da massa da pirâmide, então onde é que você iria se desfazer de dois terços da Grande Pirâmide, sem deixar vestígios?

    Outro problema irritante com todas as teorias de rampa externa de Lauer em diante, é a idéia de interromper o trabalho na pirâmide até que se construa a camada seguinte da rampa. Hemienu construiu a Grande Pirâmide em cerca de 21 a 23 anos. Essa tarefa simplesmente não poderia ser realizada nesse período de tempo se praticamente todo o trabalho na pirâmide tivesse que parar a cada vez que a rampa tivesse que ser levantada a um outro nível.

    Jean-Pierre: Também não foi isso. Até agora, os “rampistas” sempre falaram de uma rampa sendo levantada e encompridada com a elevação da pirâmide, o que significa que você tem que parar a construção para ampliar a rampa. A minha teoria, que você vai ver que inclui uma rampa externa junto com uma rampa interna, é a primeira a descrever uma rampa externa que está sendo construída ao mesmo tempo que a pirâmide se eleva.

    A rampa foi construída no seu comprimento máximo, com cerca de um quarto de milha, mas em duas partes ou pistas, construídas horizontalmente, camada por camada, segundo uma inclinação de 7-8%. Enquanto uma pista é utilizada para puxar os blocos, a outra é levantada em 2 camadas para estar pronta para a próxima etapa. A rampa está sempre crescendo com a pirâmide e por isso não há necessidade do trabalho na pirâmide parar.

    Por último, no que diz respeito às teorias dos “rampistas”, há a questão da logística. Quanto mais alto você for, menor será a área de trabalho você terá, tanto na rampa quanto na superfície do topo da pirâmide. E toda a logística envolvida com a movimentação dos blocos de 60 toneladas até o topo da Câmara do Rei e manobrá-los no lugar.

    Jean Pierre: Em uma rampa de inclinação 7%, são necessários 600 homens para puxar um bloco de 60 ton. Você consegue imaginar 600 caras? Seis linhas de tração dão linhas de 100 metros de comprimento, cada uma. É impossível coordenar um número desses. E do nível 60 metros para cima, só sobram 50 metros de espaço no lado norte para trabalhar ao redor da Câmara do Rei.

    Uma única rampa reta com uma milha de comprimento parece criar mais problemas do que resolve. Não só teria exigido tanto trabalho e materiais quanto a própria pirâmide, como não há vestígios de uma rampa enorme assim. Que fim levou? E como a pirâmide foi concluída a tempo se o trabalho teve que ser interrompido para construir a rampa a cada nível? A rampa de duas pistas de Jean-Pierre funciona bem até o nível da Câmara do Rei, mas o que acontece ao dobro dessa altura, a cerca de 135 metros? A rampa seria demasiado estreita nessa altura.

    Talvez uma rampa reta possa ter funcionado em outras pirâmides, mas Hemienu não estava construindo uma pirâmide qualquer. Ele sabia que estava enfrentando múltiplos desafios que exigiam respostas complexas, as quais tiveram que ser elaboradas de antemão.

    A rampa espiral externa: A Solução Saca-Rolhas

    Por várias boas razões a teoria da rampa reta e longa não parece funcionar. Pode-se imaginar que Hemienu tenha calculado isso bem depressa. Em um rápido levantamento da paisagem, a única abordagem viável seria a rampa alinhada à face sul da pirâmide, calculando a quantidade de material necessário para manter a inclinação constante, mesmo que a rampa atravessasse o barranco, a relação entre a largura na base e a largura no topo, o comprimento da rampa – Para Hemienu teria sido óbvio, desde o início, que uma longa rampa única não iria funcionar.

    Foi provavelmente durante um almoço mais cedo para Hemienu e sua equipe, após uma caminhada matinal pelo canteiro de obras, verificando pontos de observação, tomando notas mentalmente. Com o arquiteto e sua equipe sentados ao redor da mesa, bebericando Karkade e pensando enquanto os servos retiravam o serviço de mesa, alguém pode ter proposto o que parecia ser a solução perfeita.

    “Pense no comprimento de um papiro”, ele pode ter dito. “Esticado cobriria esta mesa inteira e ultrapassaria cada uma de suas pontas. Mas, se você o enrolar, ele poderá caber em sua túnica. O que aconteceria se dobrássemos a rampa sobre a superfície da própria pirâmide, para caber no terreno utilizável?”

    Hemienu teria refletido sobre essa idéia. Com o queixo apoiado na palma de sua mão, ele, provavelmente, considerou as vantagens. Quais problemas trariam uma rampa em espiral?

    Vantagens

    Diversas vantagens de uma rampa em espiral tornam-se imediatamente evidentes. O terreno deixaria de ser um problema, já que o terreno seria a própria pirâmide. Usando a superfície da pirâmide para apoiar a rampa, uma inclinação constante de 7-8% poderia ser facilmente mantida e a superfície de apoio seria uma constante. Não haveria nenhum barranco para ultrapassar e nada de uma base com 50 metros de largura para suportar uma rampa com 135 metros de altura. Na medida em que escala a pirâmide, a própria rampa manteria uma altura bastante regular, exceto na parte superior, onde seria realmente mais curta. Isso também reduziria a quantidade de material e o número de homens-hora necessários à construção da rampa.

    O assistente de Hemienu teria ficado satisfeito com sua epifania. O problema da rampa, que estava se transformando em um projeto tão grande quanto a própria pirâmide, tinha sido resolvido. Talvez o Vizir Hemienu, Mestre de Obras do Faraó Khufu, o honrasse com uma estela comemorativa elogiando seu gênio? Mas a sua exaltação teria durado pouco.

    “E os blocos para a Câmara do Rei?”, o mestre arquiteto teria perguntado, “Como os faremos navegar, ou a qualquer dos outros blocos, pelas esquinas do seu papiro dobrado?”

    O rápido colapso da Teoria do Saca-Rolhas

    Hemienu teria visto imediatamente que apesar de todas as vantagens, que, reconhecidamente, eram várias, também havia falhas com a rampa em espiral e que elas eram impeditivas. A mais óbvia, e talvez a mais irritante, seria como lidar com as esquinas. O bloco mais comumente utilizado na construção da pirâmide pesava de 1,5 a 2,5 toneladas e era movido sobre um tipo de trenó. Rodas não funcionariam porque teriam afundado na areia e, além disso, não há evidências do uso da roda no Egito daquela época. Então, fazer o trenó girar 90 graus nas esquinas para enfrentar o lance seguinte da rampa, seria um problema – girá-lo sobre seus trilhos simplesmente teria destruído os trenós.

    Há também a questão do tempo. Tenha em mente que toda vez que você parar a linha de produção para reorientar um trenó numa esquina, você também tem que parar toda a cadeia abaixo dele. Acredita-se que Hemienu tenha concluído a pirâmide em cerca de 21 a 23 anos, o que significa que um bloco estava sendo posto no lugar a cada minuto de construção. Como foi que os trabalhadores giraram os trenós em menos de um minuto nas esquinas estreitas da rampa saca-rolhas?

    Mesmo que o problema da orientação dos blocos-padrão nas esquinas da rampa externa tivesse sido resolvido, ainda havia o problema dos blocos imensos utilizados para construir a “Câmara do Rei”. A maior dessas placas pesava mais do que 60 toneladas e tinham mais de oito metros (um pouco mais do que 26 pés) de comprimento.

    Se você conseguir imaginar a tentativa de manobrar um bloco assim em uma esquina, mesmo se houvesse lugar onde os trabalhadores pudessem ficar enquanto empurravam/puxavam (o que não havia), a cerca de 45 graus da volta todo o peso desses blocos seria totalmente suportado pela esquina da rampa. Dado que a esquina da rampa seria, obviamente, construída na aresta da pirâmide, estamos falando de um pequeno segmento da rampa sendo prensado entre uma cunha abaixo (aresta da pirâmide) e 60 toneladas de peso acima! Este não é um modelo para suportar peso, é um modelo para rachar algo ao meio!

    Outra questão que Hemienu teria percebido foi que você simplesmente não seria capaz de construir uma rampa contra a superfície da pirâmide que fosse estável o suficiente. Mais uma vez, ignorando o problema dos blocos de 60 toneladas, se você fosse construir uma rampa larga e resistente o suficiente para mover blocos médios pirâmide acima, então a rampa externa encobriria a visão das arestas da pirâmide, o que é outro grande problema.

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    A Rampa Externa Espiralada Estreita - apesar das linhas de visagem permanecem visíveis neste modelo, simplesmente não há maneira de fixar uma rampa assim sobre a superfície da pirâmide e que ainda seja estável (Cortesia de Jean-Pierre Houdin e Dassault Systèmes).


    A fim de garantir que as quatro arestas da pirâmide estivessem subindo no mesmo ângulo constante, Hemienu teria necessidade de fazer medições freqüentes. Se a inclinação de um dos lados da pirâmide estivesse fora por uma fração de grau, então a forma da pirâmide inteira estaria comprometida e os quatro cantos não se encontrariam em um único ponto no topo. A fim de tornar essas medidas exatas as esquinas da rampa e as arestas da pirâmide teriam de estar visíveis e uma rampa saca-rolhas resistente em volta da pirâmide tornaria isso impossível.

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    A Rampa Externa Espiralada Larga - é assim que uma rampa externa estável teria se parecido, mas não há nenhuma maneira de examinar os lados da pirâmide e controlar sua forma durante a construção (Cortesia de Jean-Pierre Houdin e Dassault Systèmes).


    Parece que para cada problema resolvido da rampa externa espiralada, um outro é descoberto. Você não tem como construir uma rampa que permita que as esquinas sejam analisadas e que também seja estável o suficiente para suportar a carga dos blocos. Tal rampa implicaria em tentar construir uma pirâmide consistindo de quatro triângulos perfeitamente iguais com exatamente a mesma inclinação de cada lado, sem poder realizar uma verificação das inclinações das faces e os ângulos à medida que a construção avança. Se você construir uma rampa estreita o suficiente para permitir que as medições sejam feitas, então ela será demasiadamente instável para os blocos de 1,5 a 2,5 ton. Tenha em mente que em um determinado momento vai haver vários blocos em cada um dos trechos das rampas.

    A rampa saca-rolhas externa não poderia funcionar nem para os blocos-padrão e certamente também não para os enormes blocos de construção necessários para a construção da “Câmara do Rei” ou da “Câmara da Rainha”. Claro, outros modelos têm sido apresentados – com várias rampas de acesso, com rampas em ziguezague e com algumas rampas que parecem terem saído de um desenho de M.C. Escher. Mas através das eras, a longa rampa única e a rampa externa em espiral têm resistido ao teste do tempo.

    Mas não resistiram aos testes da Física e da Engenharia.

    A Rampa Interna em Espiral: Agora Sim Estamos Chegando a Algum Lugar!

    Como vimos na Introdução, a questão de como a Grande Pirâmide foi construída chamou a atenção de um engenheiro chamado Henri Houdin em 1999, depois de ter assistido a um programa de televisão chamado O Mistério da Pirâmide. Henri foi um dos muitos jovens franceses que herdaram a França do pós-Segunda Guerra Mundial, com toda a reconstrução que veio com ela. Logo após receber seu título de PhD na École des Arts et Métiers, um Henri de 24 anos de idade viu-se responsável pela reconstrução da Ponte Conflans fora de Paris (Brier e Houdin, pp. 2, 38). Era o ano de 1947 e uma carreira longa e impressionante carreira aguardava pelo jovem Henri.

    Henri se aposentou em 1999 mas estava longe de se sentir cansado. Ele precisava de algo para ocupar sua mente, tão aguçada e faminta de atividade como sempre. Ele abordou o problema da pirâmide de Khufu da mesma forma que abordava qualquer outro problema de engenharia que já tivesse enfrentado – Como faço para construir isto?

    As vantagens da rampa em espiral continuavam válidas. Uma rampa viável manteria uma inclinação de 7 a 8% e teria que ter em torno de uma milha de comprimento. A única maneira de fazer isso no terreno onde Hemienu construiu a Grande Pirâmide seria dobrando a rampa à volta da própria pirâmide. Múltiplas rampas retas não funcionariam, porque o único lado onde uma rampa reta poderia ser construída era o lado sul e ali o terreno permitia que apenas uma única rampa de acesso abordasse a pirâmide.

    Fazer uso do terreno artificial representado pela superfície da própria pirâmide traria o benefício de uma superfície regular livre de obstáculos, se ao menos houvesse um modo de construir uma rampa que fosse resistente o suficiente e que também deixasse linhas visíveis para a verificação de alinhamento. Então, como é que o engenheiro Henri Houdin construiria isso?

    A epifania de Henri ocorreu enquanto ele pensava como iria entregar os materiais de construção nos locais de trabalho. Neste sentido, os locais de trabalho são diferentes do local de construção. O local da construção era todo o projeto, mas o local da construção era feito de muitos locais de trabalho que estavam por toda a estrutura, muitos dos quais em constante movimentação conforme a pirâmide fosse crescendo. A epifania de Henri foi que, se era para construir a pirâmide, usando as ferramentas disponíveis no momento, ele iria construí-la de dentro para fora e a rampa seria também localizada em seu interior.

    Uma rampa interna manteria todos os benefícios da rampa saca-rolhas, resolvendo, ao mesmo tempo, muitos dos problemas. A pirâmide não seria somente a superfície de construção, seria a própria rampa. As linhas de visagem permaneceriam visíveis porque a rampa estaria oculta dentro da pirâmide. Isso significava que não haveria necessidade de permuta entre  visibilidade e estabilidade, o que se tornou duplamente irrelevante, porque a rampa seria tão resistente quanto a própria pirâmide.

    Essa solução também estaria em conformidade com a economia expressa por Hemienu em toda a pirâmide. Não haveria desperdício de material, o material já estaria no local. Não haveria desperdício de homens-hora porque, de todo modo, praticamente todo bloco posto no lugar para a rampa teria sido necessário na construção da pirâmide. E não haveria necessidade de explicar porque não existem ruínas da rampa, ou como seus materiais foram eliminados. A rampa ainda está lá, no núcleo interior da pirâmide.

    Rampa Única Espiralada Interna de Henry

    O primeiro desenho de Henri Houdin desta rampa se parece ainda com um saca-rolha verdadeiro do que o modelo externo parecia. O modelo de rampa externa em espiral acompanhava os contornos da pirâmide e tinha forma quadrada, com curvas em ângulos retos nas esquinas. O primeiro modelo de Henri era uma curva em espiral que começava no canto leste da face sul e se enrolava em seu caminho para cima numa inclinação de 8%.

    rampas hthb13 – Henri múltiplas

    Multiplas Rampas Espiraladas Internas de HenryHenri revisou seu modelo para incluir quatro rampas independentes, cada uma entrando em faces diferentes da pirâmide. Cada uma dessas rampas chegaria a um nível diferente da pirâmide, mas também permitiria que rampas múltiplas fossem utilizadas em diferentes níveis. Por exemplo, nos níveis mais baixos, onde ocorreu a maior parte do trabalho e a maior parte do material teve de ser transportado, haveria quatro rampas em uso ao mesmo tempo. À medida que cada rampa atingisse sua altura máxima e, portanto, de utilização, a pirâmide também se tornaria menor e exigiria menos material e mão-de-obra.

    A idéia de construir a pirâmide de dentro para fora com o uso de quatro rampas internas em espiral resolveu mais problemas do que qualquer outro modelo proposto até agora. Talvez, o mais importante, era que Henri tinha colocado o trem na trilha certa ao mover o trabalho para o interior. A construção da pirâmide, camada por camada, pela utilização de uma rampa externa só poderia fazer sentido para um leigo, mas um engenheiro sabe que as estruturas internas dentro do núcleo da pirâmide não só teriam que vir em primeiro lugar, mas que ditam o modo como o resto da pirâmide teria que ser construída.

    Henri compartilhou suas idéias com seu filho arquiteto, Jean-Pierre, que assumiu a tarefa com um tempero próprio. Mas Jean-Pierre Houdin trouxe para a prancheta as habilidades de um arquiteto experiente e ele viu problemas que tinham escapado ao engenheiro. Obviamente, a rampa tinha que estar dentro da pirâmide, com isso muita coisa foi resolvida. Mas a espiral circular simplesmente não podia funcionar.

    Os blocos de 1,5 a 2,5 ton. tinham que ser puxados por equipes de homens e isso não pode ser feito em uma curva. Os homens teriam que ficar em uma linha reta, a fim de efetivamente puxar as linhas ligadas aos trenós, a curva constante aplicaria pressão desigual sobre os trenós, o que levaria a uma rápida avaria.

    O modelo de Henrique também deixou por resolver o problema dos grandes blocos de mais do que 60 toneladas. Mesmo ignorando o peso, o tamanho desses blocos impediria que se ajustassem nas rampas circulares internas. Jean-Pierre sabia que estava de volta a uma rampa quadrada em espiral, o que o trouxe de volta à questão de como navegar nos ângulos retos. Havia realmente apenas uma resposta, os trenós teriam que ser levantados e girados de 90 graus a cada canto. Mais fácil dizer do que fazer.

    E sobre a alvenaria da “Câmara do Rei”? Nenhuma rampa interna poderia conseguir isso. Henri tinha posto o trem na trilha certa, mas agora cabia a Jean-Pierre movê-lo para diante. Uma rampa reta, talvez uma que fosse uma combinação interna/externa, pudesse alcançar o local de trabalho da “Câmara do Rei’ com uma inclinação de 7 a 8% e continuaria a ser curta o suficiente para caber no terreno. Mas seria longa o suficiente para acomodar homens o suficiente para puxar blocos de mais de 60 ton.? Provavelmente não. E mesmo que os blocos pudessem ser rebocado até o local de trabalho, como iriam ser manobrados até seus lugares?

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    Jean-Pierre Houdin autografa cópias de seu primeiro livro sobre a Grande Pirâmide para Magdy El-Ghandour, diretor para as missões estrangeiras no Conselho Supremo de Antiguidades, e para Abdallah Taha, Reitor da Universidade Shorouk (Foto cedida por Jean-Pierre Houdin).

    Jean-Pierre sabia que a solução tinha que envolver tanto uma rampa interna como uma externa e tanto rampas retas quanto em espiral, mas como? Como os blocos foram girados nas esquinas? Como foram puxadas para cima pela rampa reta as lajes gigantescas da “Câmara do Rei” e instaladas com tanta precisão?

    Em De Hemienu a Houdin: Parte Dois vamos entrar nos detalhes da teoria de Jean-Pierre Houdin, começando com a sua teoria própria rampa e como ela responde a todas as perguntas acima e mais ainda.

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    A fotografia “Statue-of-Hemiun.jpg”, por Einsamer Schütze, é uma cortesia da Wikimedia Commons e está licenciada sob a Creative Commons Attribution ShareAlike 3.0 License. Em resumo: você é livre para compartilhar e fazer trabalhos derivados desses arquivos sob a condição de atribuí-los adequadamente e de distribuí-los apenas sob uma licença idêntica a esta Licença Oficial.

    Copyright Keith Payne © 2009. Todos os direitos reservados.


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    De Hemienu a Houdin: Construindo Uma Grande Pirâmide – Introdução

    Publicado por janchieta em 29/10/2009

    É com muita satisfação que este Blog passa a publicar a tradução de uma série de artigos de autoria de Keith Payne, proprietário do Blog Em Hotep!, sobre a obra do arquiteto francês Jean-Pierre Houdin.

    Keith, que adota o nome de Shemsu Sesen em seus estudos sobre Egiptologia, efetuou uma análise em profundidade das idéias de Jean-Pierre e dá agora a oportunidade ao leitor brasileiro de ter acesso a essa análise. Abrangentes, didáticos e ricos em ilustrações, os artigos de Shemsu Sesen referem-se ao livro recém-publicado nos Estados Unidos “The Secret of the Great Pyramid” (O Segredo da Grande Pirâmide – ainda não lançado no Brasil), de Jean-Pierre Houdin e Bob Brier. O texto original de Shemsu Sesen, em Inglês, encontra-se no Blog Em Hotep!, cujo endereço na Web é:

    http://emhotep.net/

    Qualquer equívoco ou imprecisão aqui encontrado é devido a erro de tradução para o Português, cuja responsabilidade deve ser integralmente imputada a este tradutor.

    A Shemsu Sesen, por sua generosidade e simpatia, os nossos mais sinceros agradecimentos. Esperamos poder retribuir em futuro breve toda a gentileza e atenção que tem nos dispensado.

    A Jean-Pierre Houdin expressamos publicamente a nossa sincera admiração e o nosso profundo respeito. A solução por ele apontada, através de seu brilhante trabalho intelectual, é a solução definitiva. Grandes questões arquitetônicas exigem a intervenção de grandes arquitetos.

    Nota: Apesar de não serem legendados em Português, não deixe de assistir aos vídeos no lado direito da tela. Eles  foram extraídos do DVD “Unlocking the Great Pyramid” e são excelentes no esclarecimento das idéias de Jean-Pierre Houdin.


    Esta é a história de dois arquitetos separados por 4.500 anos, ambos tentando resolver o mesmo problema – como construir uma pirâmide medindo 230,3 metros de cada lado da base; 146,7 metros de altura e composta por 5,5 milhões de toneladas de pedras.

    Nossos Mestres Construtores têm, porém, objetivos diferentes. O primeiro, Hemienu, estava determinado a construir a maior pirâmide de todos os tempos, e o segundo, Jean-Pierre Houdin, estava igualmente determinado a descobrir como foi que ele fez isso.

    Jean-Pierre Houdin e Bob Brier escreveram um livro sobre esse assunto – The Secret of The Great Pyramid (O Segredo da Grande Pirâmide, ainda sem tradução para o Português) – em 2008, e a edição brochura deverá chegar às livrarias em breve (nos Estados Unidos). Adiantando-se à edição brochura, Em Hotep! está fornecendo a você uma resenha dividida em várias partes, do trabalho de Houdin, que será seguido por uma entrevista com o homem em pessoa.

    Mas, primeiro, quem são esses dois arquitetos?

    Hemienu, filho de Nefermaat – ou de Snefru

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    Hemienu: Vizir, Mestre de Obras e arquiteto da Grande Pirâmide (cortesia da Wikimedia Commons).

    Embora a Grande Pirâmide tenha o nome do Faraó Khufu, Hemienu foi o gênio por detrás de sua construção. Não foi por acaso que Hemienu foi selecionado para o trabalho, seu pedigree o teria preparado bem para a tarefa. O que não sabemos de fontes primárias podemos inferir a partir do que sabemos da sua história provável e da História em geral.

    Há duas teorias principais sobre a infância Hemienu. De acordo com uma teoria ele era filho de Nefermaat, o Vizir do Faraó Snefru. O Vizir Nefermaat também ostentava o título de “Filho Mais Velho do Rei” que, se tomado literalmente, faria de Hemienu neto de Snefru. Como as posições de Vizir e de Mestre de Obras andavam, em geral, de mãos dadas, acredita-se que Nefermaat, provavelmente, tenha projetado e construído as pirâmides de Snefru, incluindo a Pirâmide Vermelha, a primeira pirâmide verdadeira.

    Se Nefermaat foi o pai de Hemienu, não é difícil imaginar os dois visitando canteiros de obra juntos, o jovem extasiado com as instruções de seu pai aos trabalhadores, suas discussões sobre geografia e topografia quando ele sondava terrenos e os relatórios geológicos entregues por províncias distantes. Hemienu teria testemunhado em primeira mão as difíceis e dolorosas lições das falhas da pirâmide que desabou em Meidum e a segunda tentativa que levou à estranha forma de Pirâmide Torta, em Dashur.


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    Faraó Snefru (cortesia da Wikimedia Commons).

    A outra teoria é que Hemienu foi filho de Snefru, o próprio faraó. Como filho do faraó, Hemienu teria tido uma educação de elite, deixando-o bastante versado nos princípios da matemática e da astronomia e com uma apreciação da importância da arquitetura na religião. Seus dias na corte o teriam familiarizado com os meandros da liderança e da logística.

    Apesar de que Hemienu, por ser filho do faraó Snefru, pode não ter visitado os canteiros de obra das pirâmides (embora ele possa muito bem ter ido), ele estaria bem informado das discussões sobre suas construções. Podemos assumir isso seguramente, independentemente de quem possa ter sido seu pai, pois ele acabou se tornando Vizir e Mestre de Obras de seu irmão ou tio – Khufu. Como tal, mostrou claros sinais de ter aprendido e aprimorado os métodos utilizados pelos construtores de pirâmides que o precederam.

    A Era das Pirâmides tinha sido anunciada por Imhotep, o Vizir e Mestre Arquiteto do Faraó Djoser. Imhotep inventou a pirâmide, e embora a forma que ele projetou possa ter mudado, seu modelo para as pirâmides e os complexos associados a elas estabeleceriam o padrão para os séculos seguintes. Antes de Imhotep, faraós e outros nobres foram enterrados sob mastabas, construções retangulares de pedra que continham santuários mortuários para o falecido e que, freqüentemente, espelhavam simbolicamente as casas que ocuparam em vida.

    Imhotep concebeu um monumento fúnebre composto por mastabas empilhadas umas sobre as outras, cada vez menores à medida que eram erguidas. Sua invenção foi a Pirâmide em Degraus e ele chegou a ela através de um processo de modificação e experimentação. Como um Einstein da Terceira Dinastia, Imhotep partiu da idéia de uma pirâmide e concebendo, testando e refinando essa idéia, conseguiu o que nunca havia sido feito antes.

    Hemienu, por outro lado, era mais como Michelangelo. Desde o início ele sabia exatamente o que queria, e executando sua visão com precisão, conseguiu o que nunca foi feito até então. Ele tinha um plano que sofreu muito poucas modificações ou até mesmo nenhuma. Hemienu entendeu como cada camada tinha que parecer e funcionar, do túmulo subterrâneo provisório até o Piramidion – antes de começar a cavar.

    Jean-Pierre Houdin, filho de Henri

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    Jean-Pierre Houdin (centro) - Uma solução arquitetônica para um problema arquitetônico (cortesia de Jean-Pierre Houdin).

    Jean-Pierre Houdin também cresceu entre construções de grandes monumentos. Seu pai, Henri Houdin, fez parte da geração de crianças francesas nascidas depois da Primeira Guerra Mundial, cujas vidas seriam moldadas pelos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. No final da guerra ele recebeu seu PhD em engenharia pela prestigiosa École des Arts et Métiers de Paris. Com mais de 7.000 pontes a serem reconstruídas, foram dadas responsabilidades enormes a jovens engenheiros. Assim, em 1947, Henri Houdin, com 24 anos de idade, foi encarregado de reconstruir a ponte de Conflans, na periferia de Paris (Brier e Houdin, pp. 2, 38).

    Jean-Pierre, o mais novo de dois filhos, nasceu em 1951 e passou grande parte de sua infância brincando em canteiros de obra com seu irmão Bernard. Henri tinha sido designado para a Costa do Marfim, um protetorado francês, onde foi fundamental na reconstrução daquele país. Os passeios da família consistiam, muitas vezes, de piqueniques em canteiros de obras (Brier e Houdin, pp. 38-40).

    Não foi, portanto, nenhuma surpresa quando Jean-Pierre decidiu tornar-se um arquiteto. Para isso, ele entrou para a École des Beaux-Arts em 1970, onde, como parte de seus estudos de último ano, Jean-Pierre projetou um solar que seria considerado hoje em dia como de tecnologia verde, de ponta. O ano era 1976.

    Henri Houdin ficou intrigado com a construção da Grande Pirâmide pela primeira vez em 1998, quando assistiu a um programa de televisão sobre o assunto, “O Mistério da Pirâmide”. Ele acompanhou com interesse a explanação das teorias de construção, mas seu instinto lhe dizia que as teorias convencionais não satisfaziam. Elas eram ilógicas ao olho treinado de um mestre construtor experiente e não estavam baseadas nem em verdadeiras técnicas de engenharia civil e nem em processos de alvenaria.

    O engenheiro identificou, imediatamente, dois equívocos. O primeiro era que os blocos eram sempre descritos como sendo entregues no local, da base para o topo, a partir do exterior. O segundo equívoco era que o acabamento externo da pirâmide era mostrado sendo executado ao final do processo, partindo do topo em direção à base, sem meio algum de controlar a forma do monumento. Henri não via como isso seria possível. Ele teve, então, uma idéia engenhosa: se ele tivesse que construir uma pirâmide, ele a construiria a partir do interior.

    Henri Houdin tinha agora um projeto para mantê-lo ocupado em sua aposentadoria, e ele enfrentou o dilema com prazer. Como ele, como engenheiro, construiria a pirâmide? Ele trabalhou e retrabalhou suas idéias e, em 1999, foi longe a ponto de publicar sua teoria no jornal da Sociedade Nacional Francesa de Engenheiros e Cientistas (Brier e Houdin, p. 126).

    Henri discutiu muitas vezes sua nova paixão com Jean-Pierre, mas, assim como o engenheiro tinha visto falhas na abordagem de não-engenheiros, o filho do arquiteto começou a perceber coisas que tinham escapado a seu pai engenheiro. Por exemplo, Henri tinha imaginado uma rampa interna espiralando para cima, de modo circular, no interior da pirâmide. Jean-Pierre sabia que seria impossível mover blocos pesados em um padrão circular, não existe uma maneira eficiente de empurrar ou puxar pesos ao longo de uma curva contínua.

    Jean-Pierre também sabia que não haveria maneira da rampa interna poder acomodar alguns dos grandes blocos utilizados na construção da “Câmara do Rei” (Brier e Houdin, p. 126). De algum modo Hemienu tinha encontrado uma maneira de mover placas de granito, algumas das quais pesando mais de sessenta toneladas, a uma altura de cerca de 60 metros e manobrá-las exatamente até seu lugar certo.

    Assim, o arquiteto entrava em cena enquanto o engenheiro saia. Como Hemienu tinha feito isso? Ou, mais objetivamente, como Jean-Pierre iria fazer isso? Como você faria a engenharia reversa de uma pirâmide de cinco milhões e meio de toneladas?

    Síntese

    Cerca de 30 metros a leste da Grande Pirâmide, escavada no leito calcário, há uma trincheira de 20 metros pesquisada pela primeira vez em 1880, por Sir William M. Flinders Petrie. A trincheira contém, em 3D, um modelo exato das passagens descendente e ascendente da pirâmide, em torno das quais todo o resto seria projetado. Embora os compartimentos sejam muito mais curtos, têm as proporções exatas da coisa verdadeira, uma genuína maquete, compreendendo até o ponto do estreitamento da passagem ascendente que permitiu que os blocos fossem forçados para dentro (Brier e Houdin, pp. 114-17 ).

    Como se constata, Jean-Pierre Houdin abordaria o problema exatamente da mesma maneira que Hemienu o fez. Pensando como o arquiteto seu antecessor, Jean-Pierre usou um software arquitetônico para produzir o primeiro modelo 3D verdadeiro da pirâmide, desde Hemienu. Outros modelos da pirâmide foram feitos, com certeza, mas Jean-Pierre foi capaz de usar imagens especializadas de computador que lhe permitiram virar a pirâmide em qualquer direção, para ver o interior através do revestimento externo e virtualmente viajar através de suas passagens, como Hemienu fez em seu modelo 3D.

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    A Grande Pirâmide de Quéops - Uma rampa com uma milha de comprimento se esconde em seu interior? (Foto por Keith Payne)

    A experiência de vida de Jean-Pierre como o filho de um engenheiro, seu treinamento e experiência profissional como arquiteto e seu discernimento tecnológico fizeram dele a pessoa ideal para reexaminar a questão de como a pirâmide de Khufu foi concebida, planejada e, no final das contas, construída. Seu zelo lhe traria a atenção da Dassault Systèmes, líder mundial em imagens 3D, onde ele iria montar um time dos sonhos de modernos construtores de pirâmides e receber recursos para dar a seu projeto a atenção merecida.

    De Hemienu a Houdin – Construindo uma Grande Pirâmide

    Ao longo das próximas semanas, Em Hotep! irá levá-lo ao interior das idéias de Jean-Pierre Houdin, para que você possa explorar sua visão e avaliar suas conclusões. A primeira parte será uma análise da teoria da rampa interna. Quais são as deficiências das teorias tradicionais e como é que sua rampa interna resolve esses problemas? Então vamos entrar no núcleo da própria pirâmide e explorar as explicações de Houdin para alguns dos persistentes enigmas da pirâmide, como a função da Grande Galeria e como aqueles titânicos blocos de granito foram colocados no lugar. Finalmente, vamos terminar com uma entrevista exclusiva com o próprio Jean-Pierre Houdin, para obter esclarecimentos e descobrir onde é que ele nos levará a seguir.

    htha05-JPH01A mente de Jean-Pierre Houdin está em movimento perpétuo e dizer que a Pirâmide de Khufu é a sua paixão é dizer de menos: é a sua magnum opus, é a sua missão. Com a edição brochura de seu livro, em co-autoria com Bob Brier, O Segredo da Grande Pirâmide, prestes a ser lançada, você pode ter certeza que sua obra continua. Some-se a isso a entrevista que publicaremos, onde ele poderá prestar esclarecimentos conforme formos explorando sua teoria. Quem sabe que novas idéias poderão surgir?

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    Obra citada: Bob Brier e Jean-Pierre Houdin. The Secret fo the Great Pyramid. Nova York: Smithsonian, 2008.

    Copyright das Fotografias:

    “Estátua-de-Hemiun.jpg” por Einsamer Schütze.
    “Snofru Eg 2002.png Mus Kairo” é uma cortesia da Wikimedia Commons e está licenciada sob a Creative Commons Attribution ShareAlike 3.0 License. Em resumo: você está livre para compartilhar e fazer trabalhos derivados desses arquivos sob as condições que lhe atribuí-los adequadamente, e que você distribuí-los apenas sob uma licença idêntica a esta Official license.
    Ambas as fotografias de Jean-Pierre Houdin são cortesia de Jean-Pierre Houdin, todos os direitos reservados.

    As demais fotografias e todos os textos são Copyright por Keith Payne, © 2009. Todos os direitos reservados.

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    Um novo livro de Andrew Collins – Parte 1

    Publicado por janchieta em 22/10/2009

    (Copyright da capa: Andrew Collins, 2009)

    (Copyright da capa: Andrew Collins, 2009)


    Este Blog gostaria de agradecer o generoso apoio recebido do pesquisador e escritor britânico Sr. Andrew Collins na redação desta série de artigos sobre o seu recém-lançados livro, nos Estados Unidos e Inglaterra, “Beneath the Pyramids – Egypt’s Greatest Secret Uncovered“. Grande parte do que aqui é apresentado foi escrito pelo próprio Sr. Andrew Collins, que gentilmente nos permitiu o acesso aos textos, gráficos e fotografias originais.

    Mais detalhes sobre o livro, e também sobre outros assuntos interessantes explorados pelo pesquisador Andrew Collins podem ser encontrados, em Inglês, em seu Web site, cujo endereço é:http://www.andrewcollins.com

     

     


    Qualquer equívoco ou imprecisão encontrado nestes textos são devidos a erros de tradução para o Português, cuja responsabilidade deve ser integralmente imputada a este tradutor

    A correspondência que trocamos com o Sr. Andrew Collins durante a redação destes artigos deixou transparecer, claramente, a sua simpatia, a sua cordialidade, honestidade e a sua modéstia típica das pessoas que têm grandes idéias trafegando por suas mentes. Acima de tudo, a impressão que ficou a este tradutor é que o Sr. Andrew Collins é uma pessoa séria e bastante preocupada com a comprovação de fatos que sustentem suas investigações.
    Ao Sr. Andrew Collins o nosso respeito e os nossos mais sinceros agradecimentos. Esperamos um dia poder retribuir toda a gentileza e atenção que nos dispensou. A ele os nossos votos de grande sucesso, apesar da oposição teimosa e sem fundamento que tem recebido por parte do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito.

    Andrew Collins e Nigel Skinner-Simpson acabam de se transformar na bola da vez  da Egiptologia. Eles redescobriram, juntamente com Sue Collins – esposa de Andrew Collins – uma antiga rede de cavernas, passagens e compartimentos se espalhando por debaixo do planalto de Gizé a partir de um túmulo também redescoberto no oeste do Cemitério Ocidental da Grande Pirâmide. Mas “redescoberto” não é termo justo para  com eles. Na verdade, trata-se de uma descoberta sensacional cujas implicações surpreendentes ainda estarão sendo discutidas pelos próximos anos ou décadas.
    Collins acaba de lançar seu mais novo livro, chamado “Beneath the Pyramids – Egypt’s Greatest Secret Uncovered“, ainda sem tradução para o Português, e, como não poderia deixar de ser,  será lá que ele nos contar á todos os detalhes dessa misteriosa rede de cavernas.
    Andrew Collins é um pesquisador de renome e um escritor muito eloquente que já escreveu muitos livros e artigos sobre diversos assuntos, principalmente sobre a história do Egito antigo. “Beneath the Pyramids”, sua mais recente produção, trata da correlação que ele começou a investigar há alguns anos entre a posição dos ápices das pirâmides do platô de Gizé e as estrelas da constelação do Cisne. A Correlação Cisne-Gizé, como ficou conhecida, acabou por levá-lo ao chamado “Túmulo dos Pássaros“.
    Fachada do Túmulo dos Pássaros

    A entrada do Túmulo dos Pássaros, designada como NC 2 pela equipe de Reisner. (Copyright da foto: Andrew Collins, 2009)


    Os edifícios, templos e túmulos do Egito Antigo têm um simbolismo hermético cujo significado secreto egiptólogos de todo o mundo têm tentado decifrar há um longo tempo. Se você examinar uma vista aérea do plantô de Gizé notará que as pirâmides e a Esfinge não foram distribuídas aleatoriamente sobre a topografia do terreno. Quase instintivamente, você será levado a considerar que tudo foi construído de acordo com um mesmo plano.
    Mas, que plano?
    Os templos do Antigo Egito foram alinhados de forma tão precisa com eventos astronômicos que as pessoas puderam definir suas agendas políticas, econômicas e religiosas por eles.  Astrônomos do Observatório de Helwan, no Cairo, em um estudo de 650 templos, alguns quais datando de 3000 AC, concluíram que todos eles foram alinhados de acordo com algum evento astronomicamente significativo, por exemplo, o solstício ou equinócio ou o surgimento de Sírius, a estrela mais brilhante no céu. Para citar apenas um exemplo, o Ano Novo coincide com o momento em que a luz solar do solstício de inverno atinge o santuário central do templo de Karnak, na atual Luxor.
    As pirâmides de Gizé não seriam exceção.
    Desde os tempos faraônicos que a Grande Pirâmide tem sido associada às estrelas. Seus chamados “dutos de ar” e seu corredor descendente foram projetados para se alinharem com elas . Em épocas tão antigas quanto a Idade Média, sabe-se de romarias de adoradores de estrelas, chamados Sabeus, que vieram da Síria para Gizé para venerar a Grande Pirâmide como a expressão específica de uma estrela.
    Em 1993, quando Robert Bauval e Adrian Gilbert, em seu livro best-seller “O Mistério de Orion”, viram as três estrelas do cinturão de Orion (observação: o cinturão de Orion é popularmente conhecido como  as “Três Marias”) como definidoras do plano básico das Pirâmides de Gizé, a hipótese foi recebida com entusiasmo cauteloso. No entanto, nem todos estavam convencidos da “Teoria da Correlação de Orion”.
    Entre os discordantes estava o engenheiro Rodney Hale, amigo e colega de Collins. Como Hale demonstrou muitas vezes, a precisão da hipótese de Bauval não atinge sequer critérios mínimos de aceitação. Hale tentou sobrepor as estrelas do cinturão de Orion a uma planta das Pirâmides de Gizé. Foi fácil fazer as estrelas Alnitak e Alnilam coincidirem com os ápices da Grande Pirâmide e da Segunda Pirâmide, mas a terceira estrela, Mintaka, ficou aquém da marcação do ápice da Terceira Pirâmide. Na verdade, ela nem sequer atingiu a pirâmide. Estender essa sobreposição terra-céu para incorporar outras pirâmides próximas, seria ainda menos significativo.
    A sobreposição de Hale

    As estrelas do cinturão de Orion sobrepondo-se às pirâmides de Gizé, segundo Rodney Hale. Foram usadas uma fotografia real das estrelas e a forma como elas aparecem no programa Skyglobe 3,5. (Copyright da imagem: Rodney Hale, 2009 )

    Quando a Correlação Cisne-Gizé de Collins foi publicada em 2006, em seu livro “Cygnus Mystery”, ainda sem tradução para o Português, nasceu um debate feroz envolvendo o próprio Robert Bauval e seus partidários, levando à questão se seria a constelação do Cisne ou a de Orion a que melhor explicaria o quadro de Gizé. Collins percebeu, então, que seria necessário revisar suas afirmações referentes à constelação do Cisne.
    Enquanto trabalhava com Collins para compreender a importância da constelação do Cisne na mentalidade antiga (observação: a constelação do Cisne é facilmente visível nos céus da região Norte do Brasil, durante o verão), Rodney Hale teve um lampejo de inspiração. Ele se perguntou o que aconteceria se as três principais estrelas da “asa” do Cisne – Gienah (Epsilon Cygni), Sadr (Gamma Cygni) e Delta Cygni – que formam um arranjo semelhante ao das estrelas do cinturão de Orion, fossem sobrepostas à área das pirâmides de Gizé.
    Mapa de Lepsius, de 1842, mostrando as estrelas da constelação do Cisne, em veremelho, sobrepostas às pirâmides de Gizé. Observe o local em que Deneb obscurece LG14, mastaba da borda do Cemitério Ocidental.  (Copyright da imagem: Nigel Skinner-Simpson, 2009. Cortesia da sobreposição: Rodney Hale, 2009).

    Mapa de Lepsius, de 1842, mostrando as estrelas da constelação do Cisne, em vermelho, sobrepostas às pirâmides de Gizé. Observe o local em que Deneb obscurece a L 14, mastaba da borda do Cemitério Ocidental. (Copyright da imagem: Nigel Skinner-Simpson, 2009. Cortesia da sobreposição: Rodney Hale, 2009).

    A resposta foi que as estrelas acompanharam muito bem as posições geográficas das três pirâmides principais, melhor ainda que as de Orion. Além disso, a partir de uma posição sudeste do platô, durante a época em que as pirâmides foram construídas, essas mesmas três estrelas podiam ser vistas como fixadas a cada noite nos ápices de suas respectivas pirâmides. Ainda mais, outra estrela-chave na constelação do Cisne, Albireo, a segunda mais brilhante da constelação, situada na base do desenho cruciforme da constelação, coincidiu com o alto de Gebel Gibli.
    A brilhante estrela Deneb ajusta-se ao ápice da pirâmide, como era vista do cume de Gebel Gibli durante a época da construção das pirâmides. Observe o fluxo de estrelas da Via Láctea em torno da base da própria pirâmide. (Copyright da imagem: Andrew Collins/Rodney Hale, 2009).

    A brilhante Deneb pondo-se no ápice da Segunda Pirâmide, como era vista do cume de Gebel Gibli durante a época da construção das pirâmides. Observe o fluxo de estrelas da Via Láctea em torno da base da própria pirâmide. (Copyright da imagem: Andrew Collins/Rodney Hale, 2009).


    Todas as fotografias e todos os textos são Copyright de Andrew Collins, © 2009. Todos os direitos reservados.

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    Um novo livro de Andrew Collins – Parte 2

    Publicado por janchieta em 22/10/2009


    Na parte 1 você leu que Albiero, a segunda estrela mais brilhante da constelação do Cisne, recaiu sobre Gebel Gibli quando Hale sobrepôs a constelação ao platô de Gizé. Mas qual seria a importância dessa sobreposição se comparada às sobreposições das outras estrelas sobre os ápices das pirâmides? Muito importante e vou tentar explicar o porquê.
    Gebel Gibli é o nome de uma colina localizada a sudeste do platô, não muito longe da Esfinge. Algumas vezes seu nome também é grafado Gebel Ghibli. Ela tem, também, dois outros nomes em árabe: um é “al-Hadbah”, que significa “lugar alto”, um nome com conotações religiosas, e o outro é “Tarfaya”, uma antiga palavra para “primeiro lugar” ou “lugar de começos”, numa alusão a seu papel como um monte primordial em torno do qual tudo tomou forma.
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    A Esfinge e a colina Gebel Gibli, ao fundo. Note-se a "Estela do Sonho" sobressaindo dentre as patas do monumento (Copyright da foto: Andrew Collins, 2009).

    Esculpidas nas paredes do templo de Edfu, no sul do Egito, estão referências a uma ilha que seria um monte original da criação chamado Nun, o qual emergiu de um oceano primordial no início dos tempos. O que torna os textos Edfu únicos dentre os textos dos mitos de criação de outros centros de culto no Egito é que os textos de Edfu fazem alusão à existência, no interior dessa ilha, de um reino subterrâneo conhecido como o “duat n ba“, o Submundo da Alma ou Mundo do Além.
    Esse domínio sagrado era alcançado através de uma construção chamada “bw-hmn“, o “lugar do Poço”, dentro do qual havia um objeto chamado “bnnt“, que significa embrião ou semente, também chamado de “O Grande Lotus” ou “Trono”. Do “bnnt” emanava um esplendor ou efluxo divino com efeito criador no mundo exterior, isto é, com poder de criar o mundo físico ao seu redor. Durante uma época conhecida como “zep tepi“, o Primeiro Momento, seres míticos chamados “wrw n wrw“, um termo que significa “Os mais velhos dentre os mais velhos” ou, mais comumente, “Os Primordiais”, aqui se reuniam para executar ritos mágicos usando objetos poderosos chamados “iht“, em conjunção com o objeto “bnnt“, já citado. A expressão “iht” significava uma pedra ou um cristal à semelhança das pedras “lingam” sagradas da tradição hindu que simbolizam crescimento ou nova vida. Os Primordiais teriam criado um domínio sagrado à beira de um lago onde erigiram o primeiro templo em honra de seu líder chamado Falcão, uma espécie de homem-ave, provavelmente um poderoso xamã disfarçado de pássaro.
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    Interior do templo de Edfu, na atual Luxor

    A egiptóloga inglesa Eve A.E. Reymond escreveu em 1969 que o mundo mítico descrito nos textos de Edfu deve realmente ter existido em eras ancestrais. Ela viu nos textos sagrados claros indícios de que esse domínio estava localizado perto da antiga cidade real de Memphis, no Baixo Egito. É a Necrópole, ou a cidade dos mortos, que se estende desde Saqqara, ao sul, até Gizé, no norte do país.
    Será que esse monte primordial, ou a ilha dos textos de Edfu, poderia ser encontrado nos arredores de Gizé, onde um dia fluiu um antigo braço do Nilo? Se assim for, o que aconteceu a esse lugar e como se situava em relação à Grande Pirâmide e seus vizinhos no platô atual? Será que o Submundo da Alma realmente existiu na forma de um reino subterrâneo? Se assim foi, poderia sua entrada, o chamado Lugar do Poço, ser ainda hoje localizada?
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    A Estela dos Sonhos, de Tutmósis IV, entre as patas da Esfinge.

    Uma pista sobre o papel do Gebel Ghibli em Gizé é a Estela do Sonho, uma laje de pedra com inscrições situada entre as patas da Esfinge. Foi erigida ali pelo faraó Tutmósis IV, para comemorar o papel desempenhado por “Harmachis” (“Hor-em-akhet”, Hórus no horizonte) em sua ascensão ao trono. “Harmachis” é um antigo nome da Esfingé de Gizé. A estela refere-se a Esfinge estar situada “ao lado do Sokar em Rostau”, sendo Rostau um nome arcáico para Gizé. Significativamente, Rostau quer dizer a “boca das passagens”. Mas o que ou quem é Sokar?
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    O Sokar do Rostau (Copyright da imagem: Andrew Collins, 2009).

    Sokar foi um dos mais antigos deuses do Egito antigo. Ele presidia a morte e a ressurreição, assim como a escuridão do túmulo em que o morto repousava. Sokar era geralmente representado como uma deidade com cabeça de falcão, tanto sentado em um trono como enfaixado como uma múmia. Ele era o guardião da necrópole que servia à antiga cidade de Memphis e, em particular, à zona de Rostau, a Gizé antiga onde outrora se encontrava um santuário de Sokar, conhecido como Shetayet. Embora a localização desse santuário nunca tenha sido determinada, alguns egiptólogos acreditam que estava localizado nas proximidades de Gebel Ghibli, em cujo sopé se encontra o poço “Beer es-Samman”. Sokar foi identificado com o líder mítico dos textos Edfu, conhecido como O Falcão, cujos precursores, Os Primordiais, foram responsáveis pela construção de primeiro templo do Egito, às margens do lago que continha a ilha sagrada de criação.
    O maior rival de Sokar, até mesmo à época da construção das pirâmides, era Osíris, o deus da morte e da ressurreição. Seu culto absorveu os atributos e locais de culto do deus falcão, até Sokar acabar tornando-se apenas Sokar-Osíris ou, até mesmo, Ptah-Sokar-Osíris. Ptah era o deus criador de Memphis, cujo culto também absorveu o de Sokar. Apesar de Osíris muito provavelmente ter se originado apenas como um deus da vegetação do Delta do Nilo associado aos ciclos de regeneração, ele rapidamente usurpou o papel de Sokar como “Senhor do Rotau”. Até mesmo o Shetayet, o santuário perdido de Sokar, transformou-se no “Túmulo de Osíris”.
    Entretanto, um lugar em que Sokar ainda continuou governando foi o Duat, o Submundo da Alma egípcio, ou Mundo do Além, visto tanto como um reino físico debaixo da terra, como uma região do céu noturno associada ao pós-vida egípcio. Textos funerários antigos, especificamente o Am-Duat, o “Livro do que está no Submundo”, gravado em papiros funerários e nas paredes de túmulos do período do Império Novo, falam de Sokar como o governante do reino subterrâneo de Rostau. O falecido faraó, na forma de deus-sol, teria de navegar através do Duat a fim de alcançar a vida após a morte entre as estrelas.
    Os antigos egípcios acreditavam que as provações e tribulações que a alma do faraó morto teria de enfrentar em sua viagem através da escuridão do Submundo, eram reflexos da jornada do sol durante as horas da noite. Acreditava-se que o sol em sua órbita entrasse no Duat-Submundo ao pôr-do-sol e que viajasse através de um túnel imaginário por debaixo da terra, antes de emergir novamente ao alvorecer, no horizonte leste. Pensava-se que esse estranho reino catatônico fosse habitado por uma multidão de serpentes, demônios e espíritos, e que fosse dividido em doze “Horas”, refletindo, assim, a passagem da alma do defunto pelas horas da madrugada.
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    Sokar em uma mortalha no monte da criação. O sol aparece no meio de sua jornada de doze horas através do Duat, entre as Horas de Quinta e Sétima, conforme se infere dos doze passos da colina-pirâmide (Copyright da imagem: Andrew Collins, 2009).

     

    Horas Quarta e Quinta do Duat, que ocorriam quando o faraó, como deus-sol, aproximava-se da meia-noite, eram o domínio da Sokar. Elas ostentavam, ainda, os títulos de “Casa de Sokar”, “Terra de Sekri” (outra forma do nome Sokar) e, mais significativamente, Rostau, ou seja, Gizé. Tão diferentes das outras dez Horas eram as descrições da navegação dos falecidos através das Horas Quarta e Quinta do Duat que o egiptólogo egípcio Selim Hassan (1893-1961) escreveu que elas deviam ser aquisições provenientes de uma tradição separada que tratava exclusivamente do submundo de Gizé-Rostau. Hassan escreveu que uma representação física do Duat-Submundo pode ter existido em Gizé, já que as representações das Horas Quarta e Quinta pareciam refletir a maneira como o platô descia de noroeste a sudeste, como ainda hoje pode ser visto a partir de sua extremidade sudeste, ou seja, das imediações do “Aish el-Ghorab”, o cemitério mulçumano atual situado à sombra de Gebel Ghibli.

     

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    Aparência da Quinta Hora do Duat no texto do Am-Duat. Observe Sokar em pé sobre uma serpente em uma ilha de forma oval, debaixo de uma colina coroada pela cabeça da deusa Ísis (Copyright da imagem: Andrew Collins, 2009).

     

    Na Quinta Hora Sokar é retratado em pé, de asas abertas, sobre uma serpente de cabeça dupla. Ambas as figuras aparecem em uma ilha de formato oval que é guardada por uma esfinge de duas extremidades, conhecida como Aker-Leão (Akeru, no plural). Inquestionavelmente, essa ilha é uma representação do monte da criação nas águas primordiais. Os Akeru-Leões são tidos como protetores da entrada e da saída do Duat-Submundo, os pontos em que o sol desaparece ao pôr-do-sol e em que ressurge ao amanhecer. Selim Hassan equiparou o Aker-Leão à Esfinge de Gizé, que guarda a entrada oriental do platô, ao passo que o local mítico conhecido nos textos funerários como “Terras Altas do Aker”, foi identificado com as colinas que circundam Gizé.

     

    Nem mesmo o deus-sol estava autorizado a penetrar na câmara secreta de Sokar durante sua viagem noturna em direção à vida após a morte. A alma do falecido, em seu barco noturno, era atraída para o topo de uma colina-pirâmide cônica freqüentemente representada sobre uma ilha oval na qual estava Sokar.
    Seria a ilha da Terra de Sekri o mesmo monte primordial dos textos de Edfu? Se o Shetayet de Sokar estava localizado nas proximidades de Gebel Ghibli, então é do maior interesse a presença do poço Beer es-Samman na face norte da colina. O poço marcaria a localização do Shetayet de Sokar, onde a entrada ou a saída do Rostau, a “boca das passagens”, estaria apenas aguardando para ser encontrada.
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    Andrew Collins e Nigel Skinner-Simpson no topo da colina Begel-Ghibli (Copyrigth da foto: Andrew Collins, 2009).

    Poderiam evidências adicionais ajudar a confirmar o papel de Gebel Ghibli nesta saga fascinante? Veremos a seguir como essa colina ao sul de Gizé foi usada durante a Era das Pirâmides não apenas como ponto de observação (como ainda o é nos tempos modernos), mas que, também, interage com a geometria da paisagem ao redor, o que implicaria em algum tipo de plano unificado ou de “Grande Plano”, que teria decidido o posicionamento e até mesmo a vista das Pirâmides de Gizé.
    Todas as fotografias e todos os textos são Copyright de Andrew Collins, © 2009. Todos os direitos reservados.

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    Um novo livro de Andrew Collins – Parte 3

    Publicado por janchieta em 22/10/2009

    (Copyright da capa: Andrew Collins, 2009)

    Mais ou menos à época em que Collins já tinha se convencido de  que o Poço do Bem existia em algum lugar nas imediações do planalto de Gizé, ele topou por acaso com uma lenda preservada entre os habitantes de Nazlet es-Samman, um vilarejo moderno que hoje avança sobre a extremidade leste do campo das pirâmides. A lenda falava de um poço sagrado que era a morada de um homem santo chamado Hammed es-Samman. Seu dever era guardar a entrada desse poço, oculta por debaixo de uma pedra e que conduzia a uma cidade subterrânea.

    Isso foi por volta do final de 1998 e Collins não obteve mais nenhuma informação adicional sobre essa lenda até que, em maio de 2005, durante uma de suas viagens de investigação a Gizé, foi apresentado a um empresário local chamado Ali es-Samman. Ali conhecia bem a lenda de Hammad es-Samman e esclareceu que até recentemente o santo tinha sido venerado em um festival anual organizado pelos habitantes de Nazlet es-Samman. Ali, ele próprio um descendente de Hammad es-Samman, acrescentou que a verdadeira história do poço era mantida em segredo e que era conhecida apenas por um punhado de anciões da aldeia. Segundo Ali, existia realmente uma ligação subterrânea que levava a uma cidade subterrânea situada sob o vilarejo. Ali revelou, então, o paradeiro do poço. Disse que estava localizado debaixo de um sicômoro sagrado, no coração do moderno cemitério islâmico de Aish el-Ghurob, no canto sudeste do platô. Atordoado, Collins quis saber se poderia visitar esse lugar santo, ao que lhe foi dito “sim”, que podería ir lá no dia seguinte.

    É importante salientar que até aquela data existiam muito poucas referências a esse poço nas centenas de livros já escritos sobre a história dos monumentos do platô de Gizé. Inacreditavelmente, sua importância não era reconhecida.

    No dia seguinte, após ter evitado a polícia que ronda a entrada para a Esfinge e dado gorjetas aos guardas do cemitério, Andrew Collins viu-se sendo conduzido por um guia por entre fileiras de túmulos em formato de arca e pintados de branco, até chegar a um dos locais sagrados “perdidos” de Gizé.

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    O poço Beer es-Samman, no cemitério islâmico de Gizé. Será que ele oculta a entrada para o Submundo da Alma? (Copyright da foto: Andrew Collins, 2009)

    O poço chamado de Beer es-Samman, ou o “poço da ave samman”, é extremamente velho, constando somente de mapas antiquíssimos do platô. Suas águas cristalinas, bebidas por todos que freqüentam o cemitério, vêm de fissuras subterrâneas que inrompem de câmaras e passagens das profundezas do platô.

    Enquanto estava de pé ao lado de Beer es-Samman, à sombra de uma velha figueira (conhecida como El-Gomez, em árabe), uma descendente das mencionadas nos antigos textos egípcios, Collins percebeu o quanto o poço ficava perto da face norte da proeminente colina rochosa situada a cerca de 150 metros ao sul. Gebel Ghibli (ou Qibli), Colina Sul em árabe, é uma enigmática formação rochosa com 60 metros de altura a cerca de 400 metros ao sul da Esfinge. Vista do norte, onde as pirâmides de Gizé estão localizadas, Gebel Ghibli se parece como uma espécie colina primordial se projetando de um oceano de areia. Haveriam evidências de que aquela área pudesse conter pistas sobre o maior segredo de Gizé – o Submundo da Alma dos textos Edfu?

    Em Gizé, o sicômoro, ou Gomez, era sagrado para a deusa Hathor, que tinha o título de a “Senhora do Sicômoro Sul”. Hathor era a matrona de Gizé e uma lenda estranha, preservada até hoje, conta como ela se alimentou do sangue dos mortos da necrópole comendo o fruto vermelho do Gomez que ficava onde hoje está o atual cemitério islâmico. A tradição popular local registra que se uma mulher deseja engravidar, ela deve vir ao Beer es-Samman e ali comer o fruto do Gomez, que, devido a sua aparência característica, tornou-se um símbolo de fertilidade.

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    Nuit personificada como Via Láctea, com seu útero e vulva assinalados pelas estrelas do Cisne e a chamada Brecha do Cisne (Copyright da imagem: Andrew Collins/Rodney Hale 2009).

    Hator era a deusa-céu,  mãe do deus Hórus, o deus sol que se apresentava sob a forma de falcão. Seu nome significava a “casa de Osiris”, numa referência a seu útero cósmico. Assim como a deusa Nuit, que talvez fosse apenas uma extensão da mesma deusa, Hathor era personificada no céu noturno como a Via Láctea. Em vida, cada faraó foi associado a Hórus, enquanto sua mãe e sua esposa foram identificadas com Hathor.

    A ligação entre Nuit, em Heliópolis, e Hathor, em Gizé, só reforça a idéia da força de influência da constelação do Cisne na astronomia egípcia antiga. Ambas as deusas tinham seus próprios poços e árvores sagrados e estavam relacionadas através da mesma constelação.

    Nos antigos Textos das Pirâmides, tanto o túmulo quanto o caixão e o sarcófago do faraó eram confundidos com o útero de sua mãe Nuit. Outros textos funerários viam o corpo dela como o túnel Duat, o qual a alma do falecido atravessava como deus-sol Re. De acordo com o egiptólogo americano Mark Lehner, a alma, em seu papel de novo sol, era reacesa quando passava através da Hora Quinta. Como vimos anteriormente, a Hora Quinta do Duat era o nome tanto do reino de Sokar quanto do de Rostau, o antigo nome de Gizé. Podemos, então, dizer que o útero da deusa-céu Nuit, refletida no céu como a constelação do Cisne, foi associado ao papel de Gizé, o Duat de Memphis. Assim, faz sentido que as pirâmides de Gizé espelhem a posição astronômica das estrelas principais do Cisne, pois as pirâmides foram erigidas justamente para harmonizar com as influências celestes associadas ao útero de Nuit, o lugar do renascimento da alma do faraó quando de passagem pelo Shetayet ou túmulo de Sokar-Osíris. Somente adotando essa ressonância estelar o faraó poderia, como filho de Nuit, alcançar sua transformação em “akh”, ou espírito glorioso, em harmonia com as estrelas do céu do norte.

    Mas voltemos a uma das figuras que estava na parte 1. Lembram-se dela?

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    O mapa de Lepsius e a sobreposição de Collins/Hale (Copyright da imagem: Nigel Skinner-Simpson, 2009. Cortesia da sobreposição: Rodney Hale, 2009).

    Andrew Collins comprovou as sobreposições das estrelas da constelação do Cisne aos ápices das pirâmides de Khufu, Khafre e Menkaure. Também comprovou as sobreposições a Gebel Ghibli e ao Beer as-Samman. Mas ficou faltando comprovar que a estrela Deneb tenha se sobreposto a algo significativo. Aliás, a algo muito significativo, já que Deneb é a mais brilhante das estrelas da constelação.
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    Imagem de satélite mostrando a localização da mastaba L 14 no Cemitério Ocidental da Grande Pirâmide.

    O ponto ao qual Deneb se sobrepos estava localizado a oeste da pirâmide de Khufu, no chamado Cemitério Ocidental da Grande Pirâmide. Collins e sua esposa, Sue Collins, decidiram investigar a área em janeiro de 2007 e verificaram que a projeção de Deneb recaía sobre uma mastaba de pedra conhecida como L 14, a 14ª mastaba explorada pelo egiptólogo prussiano Karl Richard Lepsius no Cemitério Ocidental, quando de sua primeira campanha no Egito, entre 1842 e 1843. Lepsius, já naquela época, se deparou com a mastaba tão dilapidada por ladrões e tão destruída por séculos de exposição ao tempo que não encontrou nela nada que fosse digno de nota. Na verdade, Lepsius mal manteve registros dessa mastaba. Ao contrário do que imaginavam, Collins e Sue também não encontraram nada na mastaba que pudesse despertar qualquer interesse especial. Desapontados, voltaram para casa e o assunto foi posto de lado, mas continuaram intrigados em saber o por quê daquela área, aparentemente inexpressiva, ser tão importante para o “Grande Plano” do platô de Gizé.

    Foi então que o pesquisador britânico Nigel Skinner-Simpson, colega de Collins, descobriu que em 1817 o Cônsul Geral Britânico no Egito, Henry Salt, trabalhando ao lado do famoso explorador italiano, capitão reformado da marinha Giovanni Battista Caviglia, tinha visitado a mesma área do platô. Ele e Caviglia tiveram acesso a um túmulo que os levou a um sistema de cavernas profundas. Essas cavernas foram exploradas pelos dois até uma distância de “várias centenas de metros”, antes de entrarem numa grande câmara que se relacionava a outras três do mesmo tamanho e das quais saiam muitas passagens “labirinticas”.

    É justamente aqui que se percebe o brilhantismo de Collins e de sua equipe. Não estamos tratando de um mundo subterrâneo, o Submundo da Alma? Pois então a sobreposição de Deneb se dá sobre um ponto subterrâneo! Resta agora localizar a entrada para o ponto.

    Tendo reconstruído, cuidadosamente, as explorações de Salt e Caviglia no platô, Nigel Skinner-Simpson percebeu que a entrada dessa rede de cavernas deveria  ficava nos arredores de um túmulo que viria a ser apelidado por Collins de o “Túmulo dos Pássaros”.

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    Detalhe da imagem do Platô de Gizé mostrando a entrada para o Túmulo dos Pássaros (Copyright da imagem: GoogleEarth, 2009).

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    Entrada do Túmulo dos Pássaros (Copyright da foto: Andrew Collins, 2009).

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    Um novo livro de Andrew Collins – Final

    Publicado por janchieta em 22/10/2009

    (Copyright da capa: Andrew Collins, 2009)
    Convencidos de que a entrada para o sistema de cavernas descoberto por Salt e Caviglia teria de ser através do Túmulo dos Pássaros, Collins, sua esposa Sue e Nigel Skinner-Simpson fizeram planos para explorar em detalhes aquela área do platô. Collins buscou o apoio da ARE – Associação para Pesquisa e Esclarecimento (Association for Research and Enlightenment, em Inglês) – o braço de investigação da Edgar Cayce Foundation, em Virginia Beach, VA – EUA, que vem se dedicando há 70 anos à confirmação das predições de seu fundador, Edgar Cayce. Impressionados com a argumentação de Collins, eles concordaram em ajudar a patrocinar uma investigação preliminar do túmulo, o que ocorreu no início de 2008.

    Collins, Sue e Nigel chegaram ao Túmulo dos Pássaros em 8 de março e imediatamente começaram a examinar cada centímetro quadrado de suas paredes e fendas.

    A entrada do túmulo dava para o norte e consistia de uma ante-câmara seguida por um longo corredor com orientação norte-sul. Nesse corredor existiam dois grandes nichos, um à direita e outro à esquerda, e também…

    Esboço da planta do Túmulo dos Pássaros, como desenhado por um dos integrantes da equipe do egiptólogo americano George A. Reisner, em 1939.

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    Andrew Collins explorando o Túmulo dos Pássaros (Copyright da foto: Andrew Collins, 2009).

    Não tendo encontrado nada que lembrasse, nem remotamente, a entrada para uma caverna, estavam se preparando para sair e explorar outros dois túmulos que existiam nas imediações, quando…
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    Imhotep, o Leonardo da Vinci do Egito Antigo

    Publicado por janchieta em 15/10/2009

    Ou deveríamos dizer que Leonardo da Vinci foi o Imhotep do Renascimento italiano?

    Arquiteto, Engenheiro, Médico, Cirurgião, Dentista, Poeta, Filósofo, Astrônomo, Escriba, Escultor, Carpinteiro, Sacerdote, Vizir e Ministro-Chefe. Todos esses títulos são atribuídos a Imhotep, um plebeu que se supõe ter nascido em Ankhtowë, um subúrbio de Memphis no início da história egípcia. Um homem excepcional, Imhotep ascendeu na hierarquia rapidamente, devido ao seu gênio, talentos naturais e dedicação.

    Muitos detalhes de sua vida ainda não são bem conhecidos. Provavelmente ele foi filho de Kanofer, um arquiteto como o próprio Imhotep. Sua mãe deve ter sido Khreduonkh, que provavelmente pertenceu à província de Mendes e sua esposa pode ter se chamado Ronfrenofert. Ele deve ter nascido por volta de 3000 AC e ter morrido por volta de 2.950 AC.

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    O Giza Archives explicados

    Publicado por janchieta em 28/09/2009

    Você já quis saber como funcionam os Giza Archives mas teve receio de perguntar? Pois agora não há mais com o que se preocupar! O Professor Peter Der Emanuelian, em pessoa, irá explicar a você. Ah, entendo, você não agendou uma entrevista com ele. Ora! Tudo o que você tem que fazer é clicar num dos links abaixo:

    Search Giza from above

    Three ways to search the Giza Archives Web site

    The Giza Digital Library

    How to search for a tomb at Giza

    What’s cool – Giza Web site highlights

    My Giza research

    How to search Giza images by CONTENT

    Giza Web site homepage images slideshow

    Searching for Tombs: An Important Difference Between Quick Search and Advanced Search

    Prepare-se para horas sem fim de pesquisa séria e pura diversão.

    O que? Você não acredita que o Give Archives seja capaz de fazer tudo isso por você? Bem, então tente perguntar a este camarada aqui. Talvez ele entenda mais dessas coisas do que eu. Acho difícil, mas não custa tentar.

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