De Hemienu a Houdin Parte 1: Como Você Prefere a Sua Rampa, Reta ou Com uma Virada?
Publicado por janchieta em 31/10/2009
Não faltam teorias para explicar como a Grande Pirâmide do Faraó Khufu teria sido construída, mas, até agora, todas elas falharam em vários aspectos. Desde rampas que são tão grandes e difíceis de construir quanto a própria pirâmide até rampas que, por sua natureza, só tornariam a construção da pirâmide ainda mais difícil, não sabemos nem sequer explicar como realmente os blocos foram colocados em seus lugares.
Mas um arquiteto francês chamado Jean-Pierre Houdin pode estar mudando isso. Ele apresentou a primeira explicação detalhada, resistente aos testes de Física e ao bom senso, de como a Grande Pirâmide foi construída. Seu trabalho continua ganhando o apoio de arquitetos, engenheiros e egiptólogos proeminentes.
Jean-Pierre concordou gentilmente em trabalhar com Em Hotep! para colocar sua teoria em termos que sejam acessíveis àqueles dentre nós que se não são arquitetos ou engenheiros, podem ser egiptólogos amadores ou profissionais de diferentes níveis. Na Parte 1 vamos dar uma boa olhada na evolução das teorias de rampa, como funcionam e como falham, e o que mais estava envolvido na construção da única remanescente das 7 Maravilhas do Mundo Antigo.

Hemienu - o arquiteto e construtor da Grande Pirâmide de Khufu (Foto por Einsamer Schütze)
Na introdução a De Hemienu a Houdin: Construindo uma Grande Pirâmide fomos apresentados aos personagens centrais da nossa história. Hemienu, que foi Vizir e Mestre de Obras do Faraó Khufu e que projetou, planejou e construiu a Grande Pirâmide. Henri Houdin, um engenheiro francês que ficou encantado com a Pirâmide de Khufu e assumiu a tarefa de aplicar engenharia reversa à sua construção. E o protagonista do nosso conto, Jean-Pierre Houdin, o filho arquiteto de Henri e herdeiro do grande tarefa de descobrir como Hemienu realizou um dos maiores feitos arquitetônicos e de engenharia da história da humanidade.
Traçamos uma breve biografia desses três Mestres Construtores e analisamos como as épocas em que viveram, as circunstâncias históricas e até mesmo suas vidas familiares levaram-nos às suas respectivas missões. Também fomos apresentados a algumas das deficiências das muitas teorias que têm sido oferecidas por terceiros a respeito de como a Grande Pirâmide foi construída e tocamos nos conceitos que colocaram essa equipe pai e filho na trilha dos segredos de Hemienu.
Também propus um desenvolvimento e um calendário de como queria abordar este projeto, isto é, que esta série de artigos seria publicada ao longo de várias semanas; que a Parte 1 trataria dos detalhes da rampa interna de Jean-Pierre e que na Parte 2 ele proporia como a arquitetura do interior da Pirâmide de Khufu foi planejada e realizada. Agora, passado mais de um mês, é óbvio que o calendário está descompassado e peço desculpas por isso.
Mas, depois de muito trocar correspondência com o Sr. Houdin, decidi que este assunto merece mais do que apenas uma passada rápida. Existem inúmeras apresentações resumidas disponíveis on-line e impressas que podem dar a vocês noções básicas do trabalho de Jean-Pierre. Para um tratamento completo vocês realmente terão que ler o livro de Jean-Pierre e Bob Brier “O Segredo da Grande Pirâmide, que acaba de estar disponível em edição brochura (N.T.: Shemsu Sesen se refere ao lançamento da edição americana. O livro ainda não foi lançado no Brasil). Quanto a Em Hotep!, meu objetivo é fornecer notícias e artigos de referência sobre Egiptologia para “o Leigo Curioso e o Erudito em Floração”, o que significa ser abrangente e compreensível ao mesmo tempo.
Assim, a Parte 1: Como Você Prefere a sua Rampa? será uma visão detalhada das principais teorias que precederam Jean-Pierre e que, exatamente por isso, simplesmente não funcionam. Isso irá estabelecer um bom alicerce para a Parte 2, que vai lidar com as inovações de Jean-Pierre sobre várias teorias de rampa e, como você verá em breve, alicerces são muito importantes para este tópico!

A entrada da Pirâmide de Khufu, com a Entrada dos Ladrões no canto inferior direito. As pessoas entrando pela Entrada dos Ladrões dão uma idéia do tamanho dos blocos envolvidos. Observe os grandes blocos e vigas da entrada principal, há blocos maiores mais para o fundo e mais para o alto (Foto de Keith Payne).
A primeira seção deste artigo irá tratar das teorias de rampa reta, o que realmente serve como uma espécie de teste comparativo ao contrário contra o qual todas as outras teorias serão medidas. Isso pode soar um pouco ríspido, mas um entendimento do que essas teorias tentam realizar e porquê falham é vital para acompanhar sua evolução e como cada teoria nos leva para mais perto da resposta. A fim de ter 100% de certeza do entendimento correto desse aspecto muito importante da nossa discussão, a primeira seção toma a forma de um diálogo com Jean-Pierre.
A seção seguinte lançará um olhar nas teorias das rampas espiraladas externas. Essas teorias sugerem que a Grande Pirâmide foi construída com o uso de uma rampa espiralada construída sobre a superfície externa da pirâmide. Elas resolvem alguns dos problemas que tornam as teorias de rampa reta impossíveis, mas deixam várias questões importantes por resolver e também criam seus próprios problemas.
A terceira seção lançará um olhar mais atento sobre o momento do Eureka de Henri Houdin – Hemienu construiu a Grande Pirâmide de dentro para fora e ele conseguiu isso usando rampas internas. A epifania de Henri resolveu quase todos os problemas que subsistiam nas teorias anteriores, mas, como seu filho percebeu, alguns senões permaneceram.
A Rampa reta externa: Um Diálogo com Jean-Pierre Houdin

O egiptólogo Ludwig Borchardt
A teoria rampa reta foi desenvolvida por Ludwig Borchardt e completada por Jean-Philippe Lauer. A idéia básica era que uma rampa reta construída de tijolos e argamassa teria sido usada para transportar os blocos até seus lugares. Cada vez que um nível da pirâmide era concluído, o trabalho na pirâmide propriamente dita era suspenso até que a rampa pudesse construída até a altura do próximo nível. A base dessa rampa tinha que ser bastante larga, cerca de 50 metros, de modo que sua superfície em cima ainda fosse larga e estável o suficiente, à medida em que fosse sendo erguida. Tenha em mente que a pirâmide vai se estreitando conforme sobe, o mesmo devendo acontecer com a rampa.
Ao atingir o nível de 35 metros, nível em que se inicia a construção da Câmara do Rei, Lauer acreditava que a rampa de Borchardt e dele seria curta e pouco inclinada o suficiente para permitir que homens puxassem para cima grandes blocos, alguns deles pesando mais de 60 toneladas, até o local de construção da Câmara do Rei, onde máquinas usando sacos de areia como contrapeso e rampas menores cortadas no núcleo da alvenaria manobrariam os imensos blocos e vigas de pedra até seus lugares.
Para o topo da pirâmide, a rampa de Lauer aumentaria em inclinação e sua largura seria reduzida. Ele acreditava que blocos pesando uma tonelada ainda poderiam ser movidos a uma altura de 112 metros numa inclinação 14 graus e que o último trecho poderia ser tão íngreme quanto 18 graus para assim poder chegar aos 146 metros finais. Lauer postulava que para compensar a grande inclinação, blocos menores seriam usados para completar a pirâmide.

O egiptólogo Jean-Philippe Lauer
Dois problemas apresenta-se imediatamente com a rampa Borchardt-Lauer. Primeiro, ao contrário do que supunha Lauer, os blocos não diminuem progressivamente em direção ao topo da pirâmide. A espessura das camadas continua se mantendo esde a base até em cima e blocos pesando até 2,5 toneladas são utilizados até a altura de, pelo menos, 90 metros.
Depois, há a questão do Piramidion. O Piramidion era a cornija da pirâmide, uma espécie de pequena pirâmide maciça que encimava a pirâmide. Construído de pedra calcária e recoberto com electrum, uma liga que continha ouro, o Piramidion pesaria, no mínimo, 5,5 toneladas, possivelmente chegando até 15 toneladas! Além disso, embora as camadas de pedra do topo estejam faltando hoje em dia, assim como o próprio Piramidion, elas teriam de ter sido particularmente grossas para suportar o Piramidion. Com o tempo, camadas de blocos menores seriam esmagadas. É simplesmente implausível que um Piramidion pesando de 5,5 a 15 toneladas, mais sua alvenaria de suporte, pudessem ter sido elevados a uma inclinação de 18 por cento.
Jean-Pierre: Na verdade a força humana cai muito rapidamente acima de 10% de inclinação. Você deve manter uma relação ótima de força-inclinação. 7 a 8% de inclinação são os valores mais altos a considerar.
Portanto, esqueça o aumento gradual de aclive. Para construir a pirâmide usando uma rampa reta, você tem que manter uma inclinação de 7-8%, desde baixo até em cima. Em “O Segredo da Grande Pirâmide”, Jean-Pierre Houdin e Bob Brier falam sobre uma rampa reta ter uma milha de comprimento. Mas, para a rampa para chegar ao topo da pirâmide, a cerca de 146 metros, mantendo uma inclinação de 7-8%, a rampa teria que ser ainda mais longa.
Jean-Pierre: Discussões sobre uma rampa reta externa sempre falam em alcançar o ápice. Isso está errado. Nenhuma rampa pode ir acima do nível 130-135 metros – a rampa seria maior do que a pirâmide! Portanto, para atingir um nível de 130-135 metros a uma inclinação de 7%, uma rampa frontal tem que ter 1.860 metros de comprimento, cerca de 1,15 milhas. Para construir a mesma rampa com uma inclinação de 8%, seriam 1.625 metros de comprimento, cerca de uma milha, e é por isso que sempre falo de uma rampa com uma milha de comprimento.
Isto significa que a fim de manter uma inclinação de gerenciáveis 8%, a rampa reta externa tem que ter cerca de uma milha de comprimento, e acaba ficando onze metros (cerca de 36 pés) mais baixa que o ápice estimado da pirâmide. Mas, onde Hemienu teria construído uma rampa dessas?
O terreno tem muito a nos dizer sobre isso. A Grande Pirâmide foi construída sobre uma falésia e há um declive acentuado ao norte, por isso, nada de rampas por lá. Ao leste e a oeste existem cemitérios contemporâneos à pirâmide, por isso nada de rampas por lá, também. Isso nos deixa apenas o sul, que está longe de ser ideal para uma construção assim.
Jean Pierre: Exatamente. Uma única rampa frontal teria que ser perpendicular à face sul da pirâmide, o que a coloca passando por sobre o canteiro de obras antes de encher o barranco no outro lado! A topografia fala por si.
Assim, a rampa não só teria que passar além do canteiro de obras, teria que dar conta da elevação e da queda do terreno, o que significaria preencher o barranco, uma espécie de canal feito por um leito seco de rio, o que aumentaria ainda mais material e a mão-de-obra do projeto da rampa. Tenha em mente que quanto mais longe você tiver que construir a rampa descendente dando conta da queda criada pelo do barranco, mais larga a base tem que ser nessa seção.

A Rampa Reta, a Oitava Maravilha do Mundo Antigo? A questão não é só que ela teria sido um projeto tão grande quanto a própria pirâmide, mas saber que fim levou. (Cortesia de Jean-Pierre Houdin e da Dassault Systèmes).
Em qualquer lugar que você olhar na Grande Pirâmide você verá sinais não apenas do gênio arquitetônico de Hemienu, mas da economia de seus métodos. Nada foi desperdiçado em termos de tempo ou de materiais. Uma rampa que exigisse dos trabalhadores arrastarem blocos na direção oposta à da pirâmide antes de poder subir por ela, simplesmente não parece fazer sentido.
O volume de material e o número de homens-hora necessários para fazer uma rampa assim, levanta suas próprias questões. A construção de uma rampa com uma milha de comprimento que atingisse 135 metros em sua parte alta, exigiria uma quantidade enorme de material e de mão-de-obra, mesmo que fosse construída sobre uma superfície plana, coisa que não ocorreu. E onde é que todos os milhões de toneladas de pedra dessa rampa foram parar?
Quando você leva em consideração o terreno, você está falando sobre um projeto de envergadura semelhante ao da própria pirâmide, e isso apenas para a construção da rampa. Mesmo contando com a aragamassa, uma parcela significativa dessa rampa teria que ser de alvenaria sólida. Lembre-se, alguns dos blocos que ela teria que suportar pesariam mais do que sessenta toneladas. Pense nisso. Se a rampa fosse, digamos, dois terços da massa da pirâmide, então onde é que você iria se desfazer de dois terços da Grande Pirâmide, sem deixar vestígios?
Outro problema irritante com todas as teorias de rampa externa de Lauer em diante, é a idéia de interromper o trabalho na pirâmide até que se construa a camada seguinte da rampa. Hemienu construiu a Grande Pirâmide em cerca de 21 a 23 anos. Essa tarefa simplesmente não poderia ser realizada nesse período de tempo se praticamente todo o trabalho na pirâmide tivesse que parar a cada vez que a rampa tivesse que ser levantada a um outro nível.
Jean-Pierre: Também não foi isso. Até agora, os “rampistas” sempre falaram de uma rampa sendo levantada e encompridada com a elevação da pirâmide, o que significa que você tem que parar a construção para ampliar a rampa. A minha teoria, que você vai ver que inclui uma rampa externa junto com uma rampa interna, é a primeira a descrever uma rampa externa que está sendo construída ao mesmo tempo que a pirâmide se eleva.
A rampa foi construída no seu comprimento máximo, com cerca de um quarto de milha, mas em duas partes ou pistas, construídas horizontalmente, camada por camada, segundo uma inclinação de 7-8%. Enquanto uma pista é utilizada para puxar os blocos, a outra é levantada em 2 camadas para estar pronta para a próxima etapa. A rampa está sempre crescendo com a pirâmide e por isso não há necessidade do trabalho na pirâmide parar.
Por último, no que diz respeito às teorias dos “rampistas”, há a questão da logística. Quanto mais alto você for, menor será a área de trabalho você terá, tanto na rampa quanto na superfície do topo da pirâmide. E toda a logística envolvida com a movimentação dos blocos de 60 toneladas até o topo da Câmara do Rei e manobrá-los no lugar.
Jean Pierre: Em uma rampa de inclinação 7%, são necessários 600 homens para puxar um bloco de 60 ton. Você consegue imaginar 600 caras? Seis linhas de tração dão linhas de 100 metros de comprimento, cada uma. É impossível coordenar um número desses. E do nível 60 metros para cima, só sobram 50 metros de espaço no lado norte para trabalhar ao redor da Câmara do Rei.
Uma única rampa reta com uma milha de comprimento parece criar mais problemas do que resolve. Não só teria exigido tanto trabalho e materiais quanto a própria pirâmide, como não há vestígios de uma rampa enorme assim. Que fim levou? E como a pirâmide foi concluída a tempo se o trabalho teve que ser interrompido para construir a rampa a cada nível? A rampa de duas pistas de Jean-Pierre funciona bem até o nível da Câmara do Rei, mas o que acontece ao dobro dessa altura, a cerca de 135 metros? A rampa seria demasiado estreita nessa altura.
Talvez uma rampa reta possa ter funcionado em outras pirâmides, mas Hemienu não estava construindo uma pirâmide qualquer. Ele sabia que estava enfrentando múltiplos desafios que exigiam respostas complexas, as quais tiveram que ser elaboradas de antemão.
A rampa espiral externa: A Solução Saca-Rolhas
Por várias boas razões a teoria da rampa reta e longa não parece funcionar. Pode-se imaginar que Hemienu tenha calculado isso bem depressa. Em um rápido levantamento da paisagem, a única abordagem viável seria a rampa alinhada à face sul da pirâmide, calculando a quantidade de material necessário para manter a inclinação constante, mesmo que a rampa atravessasse o barranco, a relação entre a largura na base e a largura no topo, o comprimento da rampa – Para Hemienu teria sido óbvio, desde o início, que uma longa rampa única não iria funcionar.
Foi provavelmente durante um almoço mais cedo para Hemienu e sua equipe, após uma caminhada matinal pelo canteiro de obras, verificando pontos de observação, tomando notas mentalmente. Com o arquiteto e sua equipe sentados ao redor da mesa, bebericando Karkade e pensando enquanto os servos retiravam o serviço de mesa, alguém pode ter proposto o que parecia ser a solução perfeita.
“Pense no comprimento de um papiro”, ele pode ter dito. “Esticado cobriria esta mesa inteira e ultrapassaria cada uma de suas pontas. Mas, se você o enrolar, ele poderá caber em sua túnica. O que aconteceria se dobrássemos a rampa sobre a superfície da própria pirâmide, para caber no terreno utilizável?”
Hemienu teria refletido sobre essa idéia. Com o queixo apoiado na palma de sua mão, ele, provavelmente, considerou as vantagens. Quais problemas trariam uma rampa em espiral?
Vantagens
Diversas vantagens de uma rampa em espiral tornam-se imediatamente evidentes. O terreno deixaria de ser um problema, já que o terreno seria a própria pirâmide. Usando a superfície da pirâmide para apoiar a rampa, uma inclinação constante de 7-8% poderia ser facilmente mantida e a superfície de apoio seria uma constante. Não haveria nenhum barranco para ultrapassar e nada de uma base com 50 metros de largura para suportar uma rampa com 135 metros de altura. Na medida em que escala a pirâmide, a própria rampa manteria uma altura bastante regular, exceto na parte superior, onde seria realmente mais curta. Isso também reduziria a quantidade de material e o número de homens-hora necessários à construção da rampa.
O assistente de Hemienu teria ficado satisfeito com sua epifania. O problema da rampa, que estava se transformando em um projeto tão grande quanto a própria pirâmide, tinha sido resolvido. Talvez o Vizir Hemienu, Mestre de Obras do Faraó Khufu, o honrasse com uma estela comemorativa elogiando seu gênio? Mas a sua exaltação teria durado pouco.
“E os blocos para a Câmara do Rei?”, o mestre arquiteto teria perguntado, “Como os faremos navegar, ou a qualquer dos outros blocos, pelas esquinas do seu papiro dobrado?”
O rápido colapso da Teoria do Saca-Rolhas
Hemienu teria visto imediatamente que apesar de todas as vantagens, que, reconhecidamente, eram várias, também havia falhas com a rampa em espiral e que elas eram impeditivas. A mais óbvia, e talvez a mais irritante, seria como lidar com as esquinas. O bloco mais comumente utilizado na construção da pirâmide pesava de 1,5 a 2,5 toneladas e era movido sobre um tipo de trenó. Rodas não funcionariam porque teriam afundado na areia e, além disso, não há evidências do uso da roda no Egito daquela época. Então, fazer o trenó girar 90 graus nas esquinas para enfrentar o lance seguinte da rampa, seria um problema – girá-lo sobre seus trilhos simplesmente teria destruído os trenós.
Há também a questão do tempo. Tenha em mente que toda vez que você parar a linha de produção para reorientar um trenó numa esquina, você também tem que parar toda a cadeia abaixo dele. Acredita-se que Hemienu tenha concluído a pirâmide em cerca de 21 a 23 anos, o que significa que um bloco estava sendo posto no lugar a cada minuto de construção. Como foi que os trabalhadores giraram os trenós em menos de um minuto nas esquinas estreitas da rampa saca-rolhas?
Mesmo que o problema da orientação dos blocos-padrão nas esquinas da rampa externa tivesse sido resolvido, ainda havia o problema dos blocos imensos utilizados para construir a “Câmara do Rei”. A maior dessas placas pesava mais do que 60 toneladas e tinham mais de oito metros (um pouco mais do que 26 pés) de comprimento.
Se você conseguir imaginar a tentativa de manobrar um bloco assim em uma esquina, mesmo se houvesse lugar onde os trabalhadores pudessem ficar enquanto empurravam/puxavam (o que não havia), a cerca de 45 graus da volta todo o peso desses blocos seria totalmente suportado pela esquina da rampa. Dado que a esquina da rampa seria, obviamente, construída na aresta da pirâmide, estamos falando de um pequeno segmento da rampa sendo prensado entre uma cunha abaixo (aresta da pirâmide) e 60 toneladas de peso acima! Este não é um modelo para suportar peso, é um modelo para rachar algo ao meio!
Outra questão que Hemienu teria percebido foi que você simplesmente não seria capaz de construir uma rampa contra a superfície da pirâmide que fosse estável o suficiente. Mais uma vez, ignorando o problema dos blocos de 60 toneladas, se você fosse construir uma rampa larga e resistente o suficiente para mover blocos médios pirâmide acima, então a rampa externa encobriria a visão das arestas da pirâmide, o que é outro grande problema.

A Rampa Externa Espiralada Estreita - apesar das linhas de visagem permanecem visíveis neste modelo, simplesmente não há maneira de fixar uma rampa assim sobre a superfície da pirâmide e que ainda seja estável (Cortesia de Jean-Pierre Houdin e Dassault Systèmes).
A fim de garantir que as quatro arestas da pirâmide estivessem subindo no mesmo ângulo constante, Hemienu teria necessidade de fazer medições freqüentes. Se a inclinação de um dos lados da pirâmide estivesse fora por uma fração de grau, então a forma da pirâmide inteira estaria comprometida e os quatro cantos não se encontrariam em um único ponto no topo. A fim de tornar essas medidas exatas as esquinas da rampa e as arestas da pirâmide teriam de estar visíveis e uma rampa saca-rolhas resistente em volta da pirâmide tornaria isso impossível.

A Rampa Externa Espiralada Larga - é assim que uma rampa externa estável teria se parecido, mas não há nenhuma maneira de examinar os lados da pirâmide e controlar sua forma durante a construção (Cortesia de Jean-Pierre Houdin e Dassault Systèmes).
Parece que para cada problema resolvido da rampa externa espiralada, um outro é descoberto. Você não tem como construir uma rampa que permita que as esquinas sejam analisadas e que também seja estável o suficiente para suportar a carga dos blocos. Tal rampa implicaria em tentar construir uma pirâmide consistindo de quatro triângulos perfeitamente iguais com exatamente a mesma inclinação de cada lado, sem poder realizar uma verificação das inclinações das faces e os ângulos à medida que a construção avança. Se você construir uma rampa estreita o suficiente para permitir que as medições sejam feitas, então ela será demasiadamente instável para os blocos de 1,5 a 2,5 ton. Tenha em mente que em um determinado momento vai haver vários blocos em cada um dos trechos das rampas.
A rampa saca-rolhas externa não poderia funcionar nem para os blocos-padrão e certamente também não para os enormes blocos de construção necessários para a construção da “Câmara do Rei” ou da “Câmara da Rainha”. Claro, outros modelos têm sido apresentados – com várias rampas de acesso, com rampas em ziguezague e com algumas rampas que parecem terem saído de um desenho de M.C. Escher. Mas através das eras, a longa rampa única e a rampa externa em espiral têm resistido ao teste do tempo.
Mas não resistiram aos testes da Física e da Engenharia.
A Rampa Interna em Espiral: Agora Sim Estamos Chegando a Algum Lugar!
Como vimos na Introdução, a questão de como a Grande Pirâmide foi construída chamou a atenção de um engenheiro chamado Henri Houdin em 1999, depois de ter assistido a um programa de televisão chamado O Mistério da Pirâmide. Henri foi um dos muitos jovens franceses que herdaram a França do pós-Segunda Guerra Mundial, com toda a reconstrução que veio com ela. Logo após receber seu título de PhD na École des Arts et Métiers, um Henri de 24 anos de idade viu-se responsável pela reconstrução da Ponte Conflans fora de Paris (Brier e Houdin, pp. 2, 38). Era o ano de 1947 e uma carreira longa e impressionante carreira aguardava pelo jovem Henri.
Henri se aposentou em 1999 mas estava longe de se sentir cansado. Ele precisava de algo para ocupar sua mente, tão aguçada e faminta de atividade como sempre. Ele abordou o problema da pirâmide de Khufu da mesma forma que abordava qualquer outro problema de engenharia que já tivesse enfrentado – Como faço para construir isto?
As vantagens da rampa em espiral continuavam válidas. Uma rampa viável manteria uma inclinação de 7 a 8% e teria que ter em torno de uma milha de comprimento. A única maneira de fazer isso no terreno onde Hemienu construiu a Grande Pirâmide seria dobrando a rampa à volta da própria pirâmide. Múltiplas rampas retas não funcionariam, porque o único lado onde uma rampa reta poderia ser construída era o lado sul e ali o terreno permitia que apenas uma única rampa de acesso abordasse a pirâmide.
Fazer uso do terreno artificial representado pela superfície da própria pirâmide traria o benefício de uma superfície regular livre de obstáculos, se ao menos houvesse um modo de construir uma rampa que fosse resistente o suficiente e que também deixasse linhas visíveis para a verificação de alinhamento. Então, como é que o engenheiro Henri Houdin construiria isso?
A epifania de Henri ocorreu enquanto ele pensava como iria entregar os materiais de construção nos locais de trabalho. Neste sentido, os locais de trabalho são diferentes do local de construção. O local da construção era todo o projeto, mas o local da construção era feito de muitos locais de trabalho que estavam por toda a estrutura, muitos dos quais em constante movimentação conforme a pirâmide fosse crescendo. A epifania de Henri foi que, se era para construir a pirâmide, usando as ferramentas disponíveis no momento, ele iria construí-la de dentro para fora e a rampa seria também localizada em seu interior.
Uma rampa interna manteria todos os benefícios da rampa saca-rolhas, resolvendo, ao mesmo tempo, muitos dos problemas. A pirâmide não seria somente a superfície de construção, seria a própria rampa. As linhas de visagem permaneceriam visíveis porque a rampa estaria oculta dentro da pirâmide. Isso significava que não haveria necessidade de permuta entre visibilidade e estabilidade, o que se tornou duplamente irrelevante, porque a rampa seria tão resistente quanto a própria pirâmide.
Essa solução também estaria em conformidade com a economia expressa por Hemienu em toda a pirâmide. Não haveria desperdício de material, o material já estaria no local. Não haveria desperdício de homens-hora porque, de todo modo, praticamente todo bloco posto no lugar para a rampa teria sido necessário na construção da pirâmide. E não haveria necessidade de explicar porque não existem ruínas da rampa, ou como seus materiais foram eliminados. A rampa ainda está lá, no núcleo interior da pirâmide.

O primeiro desenho de Henri Houdin desta rampa se parece ainda com um saca-rolha verdadeiro do que o modelo externo parecia. O modelo de rampa externa em espiral acompanhava os contornos da pirâmide e tinha forma quadrada, com curvas em ângulos retos nas esquinas. O primeiro modelo de Henri era uma curva em espiral que começava no canto leste da face sul e se enrolava em seu caminho para cima numa inclinação de 8%.
rampas hthb13 – Henri múltiplas
Henri revisou seu modelo para incluir quatro rampas independentes, cada uma entrando em faces diferentes da pirâmide. Cada uma dessas rampas chegaria a um nível diferente da pirâmide, mas também permitiria que rampas múltiplas fossem utilizadas em diferentes níveis. Por exemplo, nos níveis mais baixos, onde ocorreu a maior parte do trabalho e a maior parte do material teve de ser transportado, haveria quatro rampas em uso ao mesmo tempo. À medida que cada rampa atingisse sua altura máxima e, portanto, de utilização, a pirâmide também se tornaria menor e exigiria menos material e mão-de-obra.
A idéia de construir a pirâmide de dentro para fora com o uso de quatro rampas internas em espiral resolveu mais problemas do que qualquer outro modelo proposto até agora. Talvez, o mais importante, era que Henri tinha colocado o trem na trilha certa ao mover o trabalho para o interior. A construção da pirâmide, camada por camada, pela utilização de uma rampa externa só poderia fazer sentido para um leigo, mas um engenheiro sabe que as estruturas internas dentro do núcleo da pirâmide não só teriam que vir em primeiro lugar, mas que ditam o modo como o resto da pirâmide teria que ser construída.
Henri compartilhou suas idéias com seu filho arquiteto, Jean-Pierre, que assumiu a tarefa com um tempero próprio. Mas Jean-Pierre Houdin trouxe para a prancheta as habilidades de um arquiteto experiente e ele viu problemas que tinham escapado ao engenheiro. Obviamente, a rampa tinha que estar dentro da pirâmide, com isso muita coisa foi resolvida. Mas a espiral circular simplesmente não podia funcionar.
Os blocos de 1,5 a 2,5 ton. tinham que ser puxados por equipes de homens e isso não pode ser feito em uma curva. Os homens teriam que ficar em uma linha reta, a fim de efetivamente puxar as linhas ligadas aos trenós, a curva constante aplicaria pressão desigual sobre os trenós, o que levaria a uma rápida avaria.
O modelo de Henrique também deixou por resolver o problema dos grandes blocos de mais do que 60 toneladas. Mesmo ignorando o peso, o tamanho desses blocos impediria que se ajustassem nas rampas circulares internas. Jean-Pierre sabia que estava de volta a uma rampa quadrada em espiral, o que o trouxe de volta à questão de como navegar nos ângulos retos. Havia realmente apenas uma resposta, os trenós teriam que ser levantados e girados de 90 graus a cada canto. Mais fácil dizer do que fazer.
E sobre a alvenaria da “Câmara do Rei”? Nenhuma rampa interna poderia conseguir isso. Henri tinha posto o trem na trilha certa, mas agora cabia a Jean-Pierre movê-lo para diante. Uma rampa reta, talvez uma que fosse uma combinação interna/externa, pudesse alcançar o local de trabalho da “Câmara do Rei’ com uma inclinação de 7 a 8% e continuaria a ser curta o suficiente para caber no terreno. Mas seria longa o suficiente para acomodar homens o suficiente para puxar blocos de mais de 60 ton.? Provavelmente não. E mesmo que os blocos pudessem ser rebocado até o local de trabalho, como iriam ser manobrados até seus lugares?

Jean-Pierre Houdin autografa cópias de seu primeiro livro sobre a Grande Pirâmide para Magdy El-Ghandour, diretor para as missões estrangeiras no Conselho Supremo de Antiguidades, e para Abdallah Taha, Reitor da Universidade Shorouk (Foto cedida por Jean-Pierre Houdin).
Jean-Pierre sabia que a solução tinha que envolver tanto uma rampa interna como uma externa e tanto rampas retas quanto em espiral, mas como? Como os blocos foram girados nas esquinas? Como foram puxadas para cima pela rampa reta as lajes gigantescas da “Câmara do Rei” e instaladas com tanta precisão?
Em De Hemienu a Houdin: Parte Dois vamos entrar nos detalhes da teoria de Jean-Pierre Houdin, começando com a sua teoria própria rampa e como ela responde a todas as perguntas acima e mais ainda.

A fotografia “Statue-of-Hemiun.jpg”, por Einsamer Schütze, é uma cortesia da Wikimedia Commons e está licenciada sob a Creative Commons Attribution ShareAlike 3.0 License. Em resumo: você é livre para compartilhar e fazer trabalhos derivados desses arquivos sob a condição de atribuí-los adequadamente e de distribuí-los apenas sob uma licença idêntica a esta Licença Oficial.
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