De Hemienu a Houdin: Construindo Uma Grande Pirâmide – Introdução
Publicado por janchieta em 29/10/2009
É com muita satisfação que este Blog passa a publicar a tradução de uma série de artigos de autoria de Keith Payne, proprietário do Blog Em Hotep!, sobre a obra do arquiteto francês Jean-Pierre Houdin.
Keith, que adota o nome de Shemsu Sesen em seus estudos sobre Egiptologia, efetuou uma análise em profundidade das idéias de Jean-Pierre e dá agora a oportunidade ao leitor brasileiro de ter acesso a essa análise. Abrangentes, didáticos e ricos em ilustrações, os artigos de Shemsu Sesen referem-se ao livro recém-publicado nos Estados Unidos “The Secret of the Great Pyramid” (O Segredo da Grande Pirâmide – ainda não lançado no Brasil), de Jean-Pierre Houdin e Bob Brier. O texto original de Shemsu Sesen, em Inglês, encontra-se no Blog Em Hotep!, cujo endereço na Web é:
Qualquer equívoco ou imprecisão aqui encontrado é devido a erro de tradução para o Português, cuja responsabilidade deve ser integralmente imputada a este tradutor.
A Shemsu Sesen, por sua generosidade e simpatia, os nossos mais sinceros agradecimentos. Esperamos poder retribuir em futuro breve toda a gentileza e atenção que tem nos dispensado.
A Jean-Pierre Houdin expressamos publicamente a nossa sincera admiração e o nosso profundo respeito. A solução por ele apontada, através de seu brilhante trabalho intelectual, é a solução definitiva. Grandes questões arquitetônicas exigem a intervenção de grandes arquitetos.
Nota: Apesar de não serem legendados em Português, não deixe de assistir aos vídeos no lado direito da tela. Eles foram extraídos do DVD “Unlocking the Great Pyramid” e são excelentes no esclarecimento das idéias de Jean-Pierre Houdin.
Esta é a história de dois arquitetos separados por 4.500 anos, ambos tentando resolver o mesmo problema – como construir uma pirâmide medindo 230,3 metros de cada lado da base; 146,7 metros de altura e composta por 5,5 milhões de toneladas de pedras.
Nossos Mestres Construtores têm, porém, objetivos diferentes. O primeiro, Hemienu, estava determinado a construir a maior pirâmide de todos os tempos, e o segundo, Jean-Pierre Houdin, estava igualmente determinado a descobrir como foi que ele fez isso.
Jean-Pierre Houdin e Bob Brier escreveram um livro sobre esse assunto – The Secret of The Great Pyramid (O Segredo da Grande Pirâmide, ainda sem tradução para o Português) – em 2008, e a edição brochura deverá chegar às livrarias em breve (nos Estados Unidos). Adiantando-se à edição brochura, Em Hotep! está fornecendo a você uma resenha dividida em várias partes, do trabalho de Houdin, que será seguido por uma entrevista com o homem em pessoa.
Mas, primeiro, quem são esses dois arquitetos?
Hemienu, filho de Nefermaat – ou de Snefru

Hemienu: Vizir, Mestre de Obras e arquiteto da Grande Pirâmide (cortesia da Wikimedia Commons).
Embora a Grande Pirâmide tenha o nome do Faraó Khufu, Hemienu foi o gênio por detrás de sua construção. Não foi por acaso que Hemienu foi selecionado para o trabalho, seu pedigree o teria preparado bem para a tarefa. O que não sabemos de fontes primárias podemos inferir a partir do que sabemos da sua história provável e da História em geral.
Há duas teorias principais sobre a infância Hemienu. De acordo com uma teoria ele era filho de Nefermaat, o Vizir do Faraó Snefru. O Vizir Nefermaat também ostentava o título de “Filho Mais Velho do Rei” que, se tomado literalmente, faria de Hemienu neto de Snefru. Como as posições de Vizir e de Mestre de Obras andavam, em geral, de mãos dadas, acredita-se que Nefermaat, provavelmente, tenha projetado e construído as pirâmides de Snefru, incluindo a Pirâmide Vermelha, a primeira pirâmide verdadeira.
Se Nefermaat foi o pai de Hemienu, não é difícil imaginar os dois visitando canteiros de obra juntos, o jovem extasiado com as instruções de seu pai aos trabalhadores, suas discussões sobre geografia e topografia quando ele sondava terrenos e os relatórios geológicos entregues por províncias distantes. Hemienu teria testemunhado em primeira mão as difíceis e dolorosas lições das falhas da pirâmide que desabou em Meidum e a segunda tentativa que levou à estranha forma de Pirâmide Torta, em Dashur.

Faraó Snefru (cortesia da Wikimedia Commons).
A outra teoria é que Hemienu foi filho de Snefru, o próprio faraó. Como filho do faraó, Hemienu teria tido uma educação de elite, deixando-o bastante versado nos princípios da matemática e da astronomia e com uma apreciação da importância da arquitetura na religião. Seus dias na corte o teriam familiarizado com os meandros da liderança e da logística.
Apesar de que Hemienu, por ser filho do faraó Snefru, pode não ter visitado os canteiros de obra das pirâmides (embora ele possa muito bem ter ido), ele estaria bem informado das discussões sobre suas construções. Podemos assumir isso seguramente, independentemente de quem possa ter sido seu pai, pois ele acabou se tornando Vizir e Mestre de Obras de seu irmão ou tio – Khufu. Como tal, mostrou claros sinais de ter aprendido e aprimorado os métodos utilizados pelos construtores de pirâmides que o precederam.
A Era das Pirâmides tinha sido anunciada por Imhotep, o Vizir e Mestre Arquiteto do Faraó Djoser. Imhotep inventou a pirâmide, e embora a forma que ele projetou possa ter mudado, seu modelo para as pirâmides e os complexos associados a elas estabeleceriam o padrão para os séculos seguintes. Antes de Imhotep, faraós e outros nobres foram enterrados sob mastabas, construções retangulares de pedra que continham santuários mortuários para o falecido e que, freqüentemente, espelhavam simbolicamente as casas que ocuparam em vida.
Imhotep concebeu um monumento fúnebre composto por mastabas empilhadas umas sobre as outras, cada vez menores à medida que eram erguidas. Sua invenção foi a Pirâmide em Degraus e ele chegou a ela através de um processo de modificação e experimentação. Como um Einstein da Terceira Dinastia, Imhotep partiu da idéia de uma pirâmide e concebendo, testando e refinando essa idéia, conseguiu o que nunca havia sido feito antes.
Hemienu, por outro lado, era mais como Michelangelo. Desde o início ele sabia exatamente o que queria, e executando sua visão com precisão, conseguiu o que nunca foi feito até então. Ele tinha um plano que sofreu muito poucas modificações ou até mesmo nenhuma. Hemienu entendeu como cada camada tinha que parecer e funcionar, do túmulo subterrâneo provisório até o Piramidion – antes de começar a cavar.
Jean-Pierre Houdin, filho de Henri

Jean-Pierre Houdin (centro) - Uma solução arquitetônica para um problema arquitetônico (cortesia de Jean-Pierre Houdin).
Jean-Pierre Houdin também cresceu entre construções de grandes monumentos. Seu pai, Henri Houdin, fez parte da geração de crianças francesas nascidas depois da Primeira Guerra Mundial, cujas vidas seriam moldadas pelos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. No final da guerra ele recebeu seu PhD em engenharia pela prestigiosa École des Arts et Métiers de Paris. Com mais de 7.000 pontes a serem reconstruídas, foram dadas responsabilidades enormes a jovens engenheiros. Assim, em 1947, Henri Houdin, com 24 anos de idade, foi encarregado de reconstruir a ponte de Conflans, na periferia de Paris (Brier e Houdin, pp. 2, 38).
Jean-Pierre, o mais novo de dois filhos, nasceu em 1951 e passou grande parte de sua infância brincando em canteiros de obra com seu irmão Bernard. Henri tinha sido designado para a Costa do Marfim, um protetorado francês, onde foi fundamental na reconstrução daquele país. Os passeios da família consistiam, muitas vezes, de piqueniques em canteiros de obras (Brier e Houdin, pp. 38-40).
Não foi, portanto, nenhuma surpresa quando Jean-Pierre decidiu tornar-se um arquiteto. Para isso, ele entrou para a École des Beaux-Arts em 1970, onde, como parte de seus estudos de último ano, Jean-Pierre projetou um solar que seria considerado hoje em dia como de tecnologia verde, de ponta. O ano era 1976.
Henri Houdin ficou intrigado com a construção da Grande Pirâmide pela primeira vez em 1998, quando assistiu a um programa de televisão sobre o assunto, “O Mistério da Pirâmide”. Ele acompanhou com interesse a explanação das teorias de construção, mas seu instinto lhe dizia que as teorias convencionais não satisfaziam. Elas eram ilógicas ao olho treinado de um mestre construtor experiente e não estavam baseadas nem em verdadeiras técnicas de engenharia civil e nem em processos de alvenaria.
O engenheiro identificou, imediatamente, dois equívocos. O primeiro era que os blocos eram sempre descritos como sendo entregues no local, da base para o topo, a partir do exterior. O segundo equívoco era que o acabamento externo da pirâmide era mostrado sendo executado ao final do processo, partindo do topo em direção à base, sem meio algum de controlar a forma do monumento. Henri não via como isso seria possível. Ele teve, então, uma idéia engenhosa: se ele tivesse que construir uma pirâmide, ele a construiria a partir do interior.
Henri Houdin tinha agora um projeto para mantê-lo ocupado em sua aposentadoria, e ele enfrentou o dilema com prazer. Como ele, como engenheiro, construiria a pirâmide? Ele trabalhou e retrabalhou suas idéias e, em 1999, foi longe a ponto de publicar sua teoria no jornal da Sociedade Nacional Francesa de Engenheiros e Cientistas (Brier e Houdin, p. 126).
Henri discutiu muitas vezes sua nova paixão com Jean-Pierre, mas, assim como o engenheiro tinha visto falhas na abordagem de não-engenheiros, o filho do arquiteto começou a perceber coisas que tinham escapado a seu pai engenheiro. Por exemplo, Henri tinha imaginado uma rampa interna espiralando para cima, de modo circular, no interior da pirâmide. Jean-Pierre sabia que seria impossível mover blocos pesados em um padrão circular, não existe uma maneira eficiente de empurrar ou puxar pesos ao longo de uma curva contínua.
Jean-Pierre também sabia que não haveria maneira da rampa interna poder acomodar alguns dos grandes blocos utilizados na construção da “Câmara do Rei” (Brier e Houdin, p. 126). De algum modo Hemienu tinha encontrado uma maneira de mover placas de granito, algumas das quais pesando mais de sessenta toneladas, a uma altura de cerca de 60 metros e manobrá-las exatamente até seu lugar certo.
Assim, o arquiteto entrava em cena enquanto o engenheiro saia. Como Hemienu tinha feito isso? Ou, mais objetivamente, como Jean-Pierre iria fazer isso? Como você faria a engenharia reversa de uma pirâmide de cinco milhões e meio de toneladas?
Síntese
Cerca de 30 metros a leste da Grande Pirâmide, escavada no leito calcário, há uma trincheira de 20 metros pesquisada pela primeira vez em 1880, por Sir William M. Flinders Petrie. A trincheira contém, em 3D, um modelo exato das passagens descendente e ascendente da pirâmide, em torno das quais todo o resto seria projetado. Embora os compartimentos sejam muito mais curtos, têm as proporções exatas da coisa verdadeira, uma genuína maquete, compreendendo até o ponto do estreitamento da passagem ascendente que permitiu que os blocos fossem forçados para dentro (Brier e Houdin, pp. 114-17 ).
Como se constata, Jean-Pierre Houdin abordaria o problema exatamente da mesma maneira que Hemienu o fez. Pensando como o arquiteto seu antecessor, Jean-Pierre usou um software arquitetônico para produzir o primeiro modelo 3D verdadeiro da pirâmide, desde Hemienu. Outros modelos da pirâmide foram feitos, com certeza, mas Jean-Pierre foi capaz de usar imagens especializadas de computador que lhe permitiram virar a pirâmide em qualquer direção, para ver o interior através do revestimento externo e virtualmente viajar através de suas passagens, como Hemienu fez em seu modelo 3D.

A Grande Pirâmide de Quéops - Uma rampa com uma milha de comprimento se esconde em seu interior? (Foto por Keith Payne)
A experiência de vida de Jean-Pierre como o filho de um engenheiro, seu treinamento e experiência profissional como arquiteto e seu discernimento tecnológico fizeram dele a pessoa ideal para reexaminar a questão de como a pirâmide de Khufu foi concebida, planejada e, no final das contas, construída. Seu zelo lhe traria a atenção da Dassault Systèmes, líder mundial em imagens 3D, onde ele iria montar um time dos sonhos de modernos construtores de pirâmides e receber recursos para dar a seu projeto a atenção merecida.
De Hemienu a Houdin – Construindo uma Grande Pirâmide
Ao longo das próximas semanas, Em Hotep! irá levá-lo ao interior das idéias de Jean-Pierre Houdin, para que você possa explorar sua visão e avaliar suas conclusões. A primeira parte será uma análise da teoria da rampa interna. Quais são as deficiências das teorias tradicionais e como é que sua rampa interna resolve esses problemas? Então vamos entrar no núcleo da própria pirâmide e explorar as explicações de Houdin para alguns dos persistentes enigmas da pirâmide, como a função da Grande Galeria e como aqueles titânicos blocos de granito foram colocados no lugar. Finalmente, vamos terminar com uma entrevista exclusiva com o próprio Jean-Pierre Houdin, para obter esclarecimentos e descobrir onde é que ele nos levará a seguir.
A mente de Jean-Pierre Houdin está em movimento perpétuo e dizer que a Pirâmide de Khufu é a sua paixão é dizer de menos: é a sua magnum opus, é a sua missão. Com a edição brochura de seu livro, em co-autoria com Bob Brier, O Segredo da Grande Pirâmide, prestes a ser lançada, você pode ter certeza que sua obra continua. Some-se a isso a entrevista que publicaremos, onde ele poderá prestar esclarecimentos conforme formos explorando sua teoria. Quem sabe que novas idéias poderão surgir?

Obra citada: Bob Brier e Jean-Pierre Houdin. The Secret fo the Great Pyramid. Nova York: Smithsonian, 2008.
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Ambas as fotografias de Jean-Pierre Houdin são cortesia de Jean-Pierre Houdin, todos os direitos reservados.
As demais fotografias e todos os textos são Copyright por Keith Payne, © 2009. Todos os direitos reservados.
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